Expectativa é coisa séria

Ao enfatizar o seu papel e de sua equipe na espetacular queda da inflação em 2017, Ilan Goldfajn, presidente do BC, não o faz por imodéstia, mas sim para mostrar à sociedade que os fundamentos teóricos do sistema de metas de inflação são corretos e funcionam.

Fernando Dantas

03 Outubro 2017 | 11h01

Nos apontamentos da apresentação de hoje (2/10/17, segunda-feira) na USP, o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, busca compreensivelmente garantir o crédito pela surpreendente queda da inflação este ano.

Ele nota que “apesar de a recessão ter se iniciado há mais de dois anos, a inflação resistiu à queda até o terceiro trimestre do ano passado”. Ilan, que assumiu as rédeas da política monetária em junho do ano passado, recorda ainda como houve a sugestão de que se adotasse uma meta ajustada para 2017 – uma opinião inclusive manifestada à época por Arminio Fraga – e como ele resistiu à ideia e manteve a meta de 4,5%, que naquele momento parecia difícil, porém crível.

O ponto central do argumento do atual presidente do BC é de que ancoragem das expectativas, que o atual BC conseguiu realizar com maestria – e que é a alma do sistema de metas de inflação –, é um fenômeno real que funciona na prática, e não mais uma quimera teórica de economistas.

Qualquer um sabe, mesmo os não treinados em economia, que uma recessão, por diminuir a demanda, contribui para a queda da inflação. A lei da oferta e da procura pode ser apreciada em qualquer feira livre e é intuitiva. Parte dos economistas heterodoxos gosta de enfatizar o papel, também inegável, do câmbio na inflação – a apreciação ajuda e a desvalorização atrapalha.

A ancoragem das expectativas, porém, é meio como o “patinho feio” dos mecanismos anti-inflacionários, não porque seja muito difícil de entender, mas principalmente porque os outros são tão óbvios e tão conhecidos.

Há uma tendência, fora do âmbito dos economistas de mercado, de se menosprezar o trabalho do BC sobre as expectativas, com argumentos do tipo “com uma recessão deste tamanho e um câmbio se apreciando, ‘até eu’ derrubava a inflação para 2,5%”. Se ainda por cima houver choques positivos, como o de alimentos, e o brinde de um ambiente externo favorável, como o atual, não se fica muito distante em atribuir o sucesso da atual política monetária à “pura sorte”.

Curiosamente, por outro lado, também se faz o argumento de que o BC “ficou atrás da curva” pelo fato de a inflação ter caído abaixo do intervalo de tolerância da meta, como se isto fosse um erro grave num país contumaz em errar no sentido contrário e como se os choques positivos fossem previsíveis.

Ilan, nos apontamentos da sua apresentação, cita ‘papers’ econômicos que mostram que expectativas elevadas de inflação são um fator que faz com que as firmas resistam mais a reduzir seus preços mesmo num ambiente recessivo. Trata-se de uma situação em que “o risco de perdas no preço domina o receio de queda na quantidade vendida”, um “comportamento defensivo (que) aprofunda a recessão sem que haja queda na inflação”.

A reivindicação dos méritos dele e de sua equipe por Ilan não é, como pode parecer a quem não esteja acompanhando o debate de política monetária no Brasil, falta de modéstia. Na verdade, trata-se de uma estratégia profilática num país em que correntes heterodoxas que até pouco influenciavam a política econômica mostram pouco apreço pelos fundamentos teóricos do sistema de metas; e onde também economistas de prestígio põem em dúvida o elo clássico entre juros e inflação com base num trabalho polêmico na estratosfera da economia teórica e realizado com foco na situação quase deflacionária de que apenas agora o mundo desenvolvido está conseguindo sair – um contexto absolutamente inexistente no Brasil dos últimos anos.

Infelizmente, em termos de política econômica, o Brasil ainda é um país em que é necessário recorrentemente reafirmar que dois mais dois são quatro. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 2/10/17, segunda-feira.