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Extrema-direita no Bundestag

Ascensão do AfD na Alemanha, partido anti-imigração de extrema-direita, mostra que prossegue a onda global de polarização na política.

Fernando Dantas

26 Setembro 2017 | 11h13

Os resultados da eleição federal na Alemanha mostram que a onda global de populismo de direita continua viva, depois de alguns obituários precoces que se seguiram aos resultados eleitorais abaixo do esperado este ano dos líderes de extrema-direita Marine Le Pen na França e de Geert Wilders na Holanda.

Agora, o partido Alternativa para a Alemanha (AfG), criado em 2013, recebeu 12,6% dos votos alemães e elegeu 94 deputados para o Parlamento do país, o Bundestag, que terá um total de 709 representantes. É praticamente a primeira vez que a extrema-direita entra na vida parlamentar no pós-guerra, com exceção de rápidas e pouco significativas aparições de pequenos grupos na década de 50, nos primeiros anos do Bundestag.

O AfG já declarou que quer fazer “oposição construtiva” ao governo a ser liderado pelos democratas-cristãos da sigla CDU/CSU da premiê Angela Merkel, que chegaram em primeiro lugar com 33% dos votos e 246 cadeiras no Bundestag.

Já os socialdemocratas do SPD (20,5% dos votos, 153 cadeiras) dizem que não vão mais participar do governo de coalizão com o CDU/CSU, prévio a esta eleição. Os democratas-cristãos, por sua vez, que segundo Merkel, ainda não desistiram de tentar uma coalizão com o SPD, também vão negociar alternativamente com os Verdes e os liberais do partido FDP para tentar formar a maioria parlamentar.

Tanto o CDU/CSU quanto o SPD, que lideraram todas as coalizões de governo do pós-guerra na Alemanha, tiveram um dos seus piores resultados históricos nessa eleição, perdendo terreno para partidos menores, dos quais o grande beneficiário foi o AfD.

O AfD é singular entre as agremiações de extrema-direita que vêm crescendo na Europa nas últimas décadas. O partido nasceu com um perfil mais liberal e ortodoxo, focado em questões econômicas e de relacionamento institucional com a União Europeia. O estopim para o seu surgimento foram as negociações de suporte da UE para a Grécia após o país mediterrâneo entrar em colapso financeiro e econômico na esteira da grande crise global de 2008 e 2009.

Muitos alemães ficaram indignados com a participação da Alemanha em programas de apoio à Grécia que, a seu ver, não só transferiam dinheiro dos contribuintes nacionais para estrangeiros gregos que “não fizeram o dever de casa” em termos de ortodoxia fiscal e de reformas estruturais nos tempos de bonança pré-crise global, mas também violariam as leis germânicas e algumas regras da própria UE.

Praticamente desde o início, entretanto, o AfD desenvolveu uma corrente mais radical e mais ligada a uma plataforma anti-imigração, no feitio dos outros partidos de extrema-direita da Europa.

Em 2015 houve o início da chamada “crise de imigração europeia”, um grande salto do número de imigrantes e de pessoas em busca de asilo político na Europa, a maioria de países islâmicos, em função da guerra da Síria e de outros conflitos geopolíticos, além de causas econômicas. A postura inicial de Merkel de abrir as portas da Alemanha por razões humanitárias – depois a chanceler fez vários recuos em relação a esta generosidade – foi o gatilho para que as alas mais extremistas e anti-imigração passassem a controlar e dar o tom no AfD.

Na verdade, a tensão entre grupos e lideranças mais e menos radicais foi uma tônica da curta história do AfD, com acirradas disputas internas e súbitas ascensões e quedas de líderes. Por exemplo, a política Frauke Petry, com forte posicionamentos anti-imigração, que no passado bem recente brigou e derrotou lideranças mais moderadas, acaba de anunciar que vai sair do partido e atuar como independente do novo Bundestag. Só que agora ela estava do lado moderado, tentando tornar o AfD mais aceitável para o establishment , de forma que pudesse entrar eventualmente em coalizões governamentais.

Foi provavelmente o AfD que caminhou ainda mais para a extrema-direita do que Frauke Petry que moderou suas posições. As principais lideranças do partido hoje, como Alexander Gauland e Alice Weidel, mesclam uma ou outra declaração no limiar do intolerável para o establishment – como uma visão revisionista em relação à culpa pelo passado nazista, um totem fundamental na política alemã do pós-guerra – com a tentativa de manter pelo menos a aparência de um “cordão sanitário” em relação a movimentos neonazistas explícitos. O mesmo, entretanto, não se pode dizer de vários eleitos pelo AfD para o Bundestag, com laços menos disfarçados com grupos claramente fascistas e racistas.

Não se deve superestimar, por outro lado, a importância da entrada do AfD na vida política parlamentar alemã. Como notam alguns analistas, a Alemanha estava no grupo bem minoritário na Europa dos países sem uma representação política significativa da extrema-direita. Assim, de certa forma, era uma questão de tempo até que isso acontecesse e, como provam as eleições recentes na França e na Holanda, a extrema-direita pode crescer e ameaçar, mas nos tempos atuais tem enormes dificuldades na reta de chegada eleitoral em países democráticos (Trump é um caso atípico e problemático de classificar, porque foi eleito por um partido conservador “mainstream”).

Ainda assim, pode causar um calafrio o fato de que justo na Alemanha, onde grassou o regime de extrema-direita mais homicida e moralmente depravado da moderna história humana, o Parlamento volte a abrigar uma quantidade expressiva de representantes de um partido como o AfD. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 25/9/17, segunda-feira

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