Falta o choque de confiança

Fernando Dantas

23 de agosto de 2013 | 21h35

A forte queda do dólar (que estava sendo negociado a R$ 2,3560 quando esta nota foi redigida) atesta que o Banco Central foi extremamente feliz com seu anúncio de uma programação diária de swaps cambiais e de leilão de linha (às sextas). Pela primeira vez em muito tempo, a autoridade monetária pôde sentir o bálsamo da aprovação quase unânime do mercado.

Ninguém acha, porém, que o problema está resolvido. O processo de normalização da política monetária americana já foi deflagrado desde maio, e, ao longo do caminho, haverá inúmeros solavancos e alívios. Será difícil, aliás, separar precisamente o que é melhora ou acerto de política econômica no cenário doméstico do que é puro desdobramento da influência da alta das taxas de juros americanas lá fora.

De qualquer forma, para uma corrente de economistas, o que falta para dar solidez à estratégia de defesa montada pelo Banco Central é um choque de confiança na política econômica brasileira.

José Márcio Camargo, economista-chefe da gestora Opus, no Rio, avalia que a grande virtude do pacote de intervenção cambial anunciado ontem pelo BC é justamente “amenizar a volatilidade decorrente das incertezas e da perda de credibilidade aqui dentro”.

Camargo acha inclusive que há uma volta do “risco político” ao cenário econômico-financeiro, algo que não ocorria, na sua análise, desde 2003. Este risco político decorre, segundo o economista, da incerteza sobre qual será a política econômica de um eventual segundo mandato da presidente Dilma Rousseff.  O cenário eleitoral pouco claro, em que o candidato da oposição tradicional, o tucano Aécio Neves, não decola, e em que cresce a candidatura alternativa de Marina Silva, não ajuda a dissipar dúvidas e temores.

Samuel Pessôa, sócio e economista-chefe da gestora Reliance, em São Paulo, diz que há uma discussão intensa na instituição, entre economistas e operadores, para tentar determinar até que ponto o Brasil está sendo mais atingido pela correção cambial global por causa de problemas na política econômica doméstica.

“É muito difícil medir este componente”, diz Pessôa, que ainda assim acredita que ele tem importância na atual conjuntura.

O economista da Reliance acha que seria possível reforçar as defesas do Brasil com um choque de confiança, que envolveria algumas medidas de política econômica que estão ao alcance do Executivo fazer.

A primeira seria um sinal explícito da presidência da República de que o Banco Central tem total autonomia para lidar com as consequências inflacionárias da desvalorização, e que vai tentar fazer a inflação recuar de fato em 2014, em relação a 2013 (que, por causa do efeito de curto prazo do repasse cambial, ele acha que será bem alta, acima de 6%, e até com algum risco de chegar próximo ao teto do intervalo da meta, de 6,5%).

O segundo passo seria rearrumar a casa em termos de preços administrados, especialmente com um ajuste do preço da gasolina. O governo, para Pessôa, poderia também reverter desonerações de IPI e a troca de impostos sobre a folha pela tributação pelo faturamento de setores que serão agora favorecidos pela desvalorização, e que não precisam mais daqueles benefícios. Isto poderia dar um impulso à arrecadação, e ajudaria o governo com a terceira medida necessária no choque de confiança, segundo Pessôa: o comprometimento com um superávit primário “limpo”, sem descontos e manobras contábeis, de 2% do PIB em 2014.

Abaixo, posts publicados agora no blog, com visões da crise por dois ex-diretores do BC que navegaram mares bem mais turbulentos: Ilan Goldfajn e Luiz Fernando Figueiredo.

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast. E-mail: fernando.dantas@estadao.com

 Esse artigo foi publicado originalmente na AE-News Broadcast

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