Fatores do risco de recessão nos EUA

Goldman Sachs tem como cenário base que economia americana desacelere para colocar inflação na meta, mas sem recessão. Contudo, economistas da instituição, em relatório, mostram o que poderia dar errado.

Fernando Dantas

13 de junho de 2022 | 12h28

A divulgação hoje [10/6, sexta-feira] da inflação de 1% em maio nos Estados Unidos, e de 8,6% em um ano, balançou os mercados globais. Como reportado por Gabriel Caldeira, da Agência Estado, as chances de que o FED eleve a taxa básica em 0,75 ponto base em julho passaram a ser majoritárias. O Barclays prevê aumento de 0,75pb já na reunião da semana que vem.

Para padrões da política monetária americana das últimos décadas, 0,75pb de alta dos Fed Funds (taxa básica) é uma paulada, e a última vez em que se deu um passo desse tamanho foi em novembro de 1994.

A rentabilidade do título de dez anos do Tesouro americano dobrou de 1,5% para 3%, em valores aproximados, desde o início deste ano, e a de do papel de dois anos quadruplicou de 0,7% para 2,8% no mesmo período.

São tempos nervosos, portanto, em que se teme que seja necessário provocar uma recessão para trazer a inflação dos Estados Unidos de volta para meta de cerca de 2%.

Nesse contexto, recente relatório dos economistas Joseph Briggs e David Mericle, do Goldman Sachs, mostra uma perspectiva até relativamente otimista, mas delineando os principais riscos que poderiam efetivamente levar a uma recessão nos Estados Unidos.

Os economistas veem como necessária uma desaceleração do crescimento anual dos salários, atualmente em 5,4%, para a faixa de 3,5-4% para que o Fed consiga trazer a inflação de volta para o intervalo de 2/2,5% nos anos à frente.

Com a suposição de que 0,75 ponto porcentual (pp) dessa freada seja atingida com a reversão dos efeitos de transferências fiscais e adicionais de salário ligados à pandemia, o chamado “jobs-work gap” teria que cair pela metade para que aquela desaceleração do aumento salarial fosse obtida.

O “jobs-work gap” é uma medida muito importante de aquecimento do mercado de trabalho nas análises do Goldman Sachs. De forma muito simplificada, indica que há mais vagas abertas do que desempregados. Quanto maior, mais aquecimento, mais pressão inflacionária.

No cenário base da instituição, haverá a volta de 1 milhão de trabalhadores para a força de trabalho e a taxa de abertura de vagas vai cair em 0,5pp – ambos as projeções como simples normalização da economia à medida que os “efeitos especiais” provocados pela pandemia vão de dissipando.

Se tudo isso ocorrer, a política econômica terá que levar o ritmo de crescimento anual da economia para a casa de 1-1,5% por algum tempo, abaixo do potencial, mas sem caracterizar recessão. Essa desaceleração da atividade será necessária para reduzir o que falta da demanda por trabalhadores, reequilibrando o mercado de trabalho.

Dado o cenário base, os dois economistas listam os fatores incertos que podem tanto piorar a situação – tornando necessária uma recessão para que a inflação volte à meta – como melhorar.

A primeira questão importante mencionada é justamente quanto do atual ritmo forte de aumento salarial deve-se a fatores ligados à pandemia e que não se repetirão. A segunda é se e quanto a pressão inflacionária global derivada da alta dos preços das commodities e dos gargalos logísticos vai se reverter.

A terceira questão é quanto dos cerca de 2 milhões de americanos que deixaram a força de trabalho durante a pandemia irão retornar a ela. E a quarta é justamente se a abertura frenética de vagas de trabalho na economia americana também vai desacelerar espontaneamente – isto é, as empresas concluindo que exageraram a necessidade de contratação passada, o que é diferente de serem forçadas a reduzir o ritmo porque projetam piora econômica à frente.

O Goldman Sachs, portanto, mantém relativo otimismo, mas a mensagem principal é que a evolução dos fatores acima é que, em última instância, vai determinar se haverá ou não recessão na principal economia global.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 10/6/2022, sexta-feira.