Fed aumentou incerteza e risco de recessão

Ao mudar em cima da hora o seu “guidance” do tamanho do aumento de juro na última reunião, com o expediente meio amadorístico de vazar a informação via imprensa, o BC dos EUA perdeu credibilidade.

Fernando Dantas

15 de julho de 2022 | 18h32

No dia 13 de junho, segunda-feira, há cerca de um mês, o jornalista Nick Timiraos, do Wall Street Journal, publicou reportagem dizendo que o Federal Reserve (Fed, BC dos EUA) provavelmente elevaria a taxa básica, os Fed Funds, em 0,75 ponto porcentual (pp), para o nível de 1,5-1,75%, na reunião do FOMC (comitê de política monetária) de 14-15 de junho.

A reportagem caiu como uma bomba nos mercados. O Fed estava em pleno período do chamado “blackout”,  em que seus dirigentes não falam ao público devido à proximidade da reunião do FOMC. E, nas comunicações públicas prévias ao blackout, Jerome Powell, chairman do Fed, e seus colaboradores tinham sinalizado aumento de 0,5pp na reunião de junho.

Ninguém provou isso, mas quase todo mundo acha até hoje que os dirigentes do Fed, na verdade, “sopraram” no ouvido de Timiraos, um tarimbado e prestigiado jornalista dedicado a cobrir o BC dos EUA, a mudança de planos.

E a razão é clara. Há dois dias da reunião o Fed não pode, pelo protocolo do blackout, comunicar publicamente seus planos. Mas o BC dos EUA temia a reação do mercado a uma surpresa total no dia 15, quando elevaria (como de fato o fez) os Fed Funds em 0,75pp, em vez dos 0,5pp sinalizados enquanto ainda podia se comunicar publicamente.

A solução seria vazar em background a informação para um jornalista respeitado trabalhando para o WSJ, talvez a principal “bíblia” do mercado financeiro.

Como era de se esperar, instituições financeiras de grande prestígio anunciaram imediatamente que estavam mudando sua projeção de alta dos Fed Funds em junho de 0,5pp para 0,75pp, mas não em função de qualquer tipo de análise própria da conjuntura ou do comportamento do Fed. Estavam mudando simplesmente por causa da reportagem no WSJ.

O motivo pelo qual o Fed mudou seu plano de voo a poucos dias da reunião de junho foi a disparada da inflação americana para além da maioria dos prognósticos. No caso, em junho o que “pegou” mais foi a divulgação, na sexta-feira, 10/6, de que a inflação ao consumidor americana no ano até maio (inclusive) batera em 8,6%

A alta de 0,75pp veio ao fim da reunião do FOMC em 15/6, e só surpreendeu os muito desavisados.

O problema, porém, como aponta um respeitado gestor brasileiro, é que tudo tem custo em política monetária.

As perspectivas da economia americana e global vêm piorando, com aumento da expectativa de recessão nos Estados Unidos – e risco do mesmo em escala mundial –  em algum momento não muito distante à frente.

Em consequência, nas últimas semanas, as commodities vêm caindo, as moedas dos emergentes (real incluído) se depreciam, e as bolsas norte-americanas recuam, puxando para baixo os mercados acionários globais.

O motivo principal está claro. A inflação norte-americana está cada vez mais ameaçadora, tendo atingido 9,1% no ano até junho. E, com isso, as projeções sobre a intensidade e duração do aperto monetário nos Estados Unidos estão em alta, refletindo-se diretamente na probabilidade e intensidade da eventual recessão.

Mas o gestor chama a atenção para um segundo fator, complementar a esse, e muito relevante: o forte aumento da volatilidade nos mercados financeiros globais, a partir do mesmo fenômeno no decisivo e referencial mercado de juros norte-americano.

E esse aumento da volatilidade do juro americano está, na sua visão, diretamente ligado ao episódio da mudança em cima da hora do plano de voo do Fed em junho.

“A forma como aconteceu minou a credibilidade do ‘guidance’ que o Fed dá sobre seus passos futuros”, diz o analista.

Esse fato está claríssimo quando se pensa que o último guidance do Fed sobre a decisão de política monetária da reunião de julho, nos dias 26 e 27, terça e quarta-feira, foi de alta de 0,75pp, com alguma possibilidade de desacelerar para 0,5pp.

E ontem [13/7, quarta-feira], aponta o gestor, o mercado indicava uma probabilidade de 90% de aumento de 1pp na reunião de julho.

Na sua visão, diante da dúvida sobre a confiabilidade do guidance do Fed, o mercado reage a cada dado econômico e financeiro de forma bem mais intensa, levando os ativos, especialmente os juros, a serem negociados num intervalo maior e com variações mais imprevisíveis.

O aumento da volatilidade do mercado de juros dos Estados Unidos, por sua vez, se dissemina para os juros de quase todos os países. Isso ocorre porque o spread sobre os juros de títulos americanos de mesmo prazo e mesmas características é justamente a medida relevante para os juros de outros países.

“Todas as curvas de juros ficam mais voláteis, criando mais incerteza, e ajudando a empurrar o mundo para a próxima recessão”, avalia o analista.

Ele acrescenta que a volatilidade, especialmente quando muito alta, é “quase incerteza”  – inclusive medidas de volatilidade fazem parte de vários índices de incerteza. E fortes aumentos de incerteza reduzem a propensão ao investimento produtivo ou à tomada de grandes decisões de consumo. Como tal, a incerteza em alta é um fator recessivo.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 14/7/2022, quinta-feira.