Feliz 2020, quando assunto é crescimento

Analistas acham que, caso o governo Bolsonaro seja bem-sucedido nos seus projetos para este início de mandato (incluindo a aprovação da reforma da Previdência), apenas em 2020 o crescimento alcançará números mais expressivos.

Fernando Dantas

08 de janeiro de 2019 | 19h45

A mediana da pesquisa Focus do BC aponta que participantes do mercado e consultores esperam crescimento do PIB brasileiro de 2,5% tanto este ano como em 2020. Mas é só conversar com alguns analistas que se constata que, para boa parte deles, existe um substancial “risco positivo” para o ano que vem – isto é, a possibilidade de que as projeções de crescimento para 2020 venham a subir de forma significativa.

Evidentemente, sempre há também o risco negativo, de que as coisas desandem e a economia volte a decepcionar. Mas, neste início do governo Bolsonaro, com expressiva alta na bolsa e queda intensa do dólar e dos juros (em relação ao momento em que foi eleito presidente), está claro que o risco positivo para 2020 está no comando do espetáculo.

Mas por que as projeções de 2019 estão bem menos (não inteiramente) suscetíveis ao “risco positivo”? Como explicam analistas ouvidos pela coluna, diversos fatores conspiram para que um primeiro semestre bem-sucedido do governo (o que ainda está longe de ser favas contadas) reflita-se mais no crescimento do próximo ano do que de 2019.

Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX, no Rio, nota que o primeiro trimestre deste ano não deve exibir resultados extraordinários e que a forte melhora da confiança de consumidores, empresas e da construção desde a eleição precisa de mais tempo para se traduzir em mais consumo, investimento e obras.

Para ela, se uma reforma da Previdência relevante (o padrão do mercado parece ser o de algo que produza pelo menos as economias fiscais da reforma de Temer que já foi aprovada em comissão especial da Câmara) for aprovada nos meses à frente e a agenda liberalizante e privatizante do ministro da Economia, Paulo Guedes, fluir bem, os primeiros efeitos de aceleração de crescimento serão sentidos no segundo semestre deste ano e o pleno impacto ocorrerá em 2020.

“Se a reforma da Previdência passar e as principais agendas andarem, a gente pode ir para mais de 3,5% em 2020”, diz Solange. A sua projeção para 2019 é de 2,8%.

Tomás Brisola, economista-chefe do Bahia Asset Management, se diz “bastante animado com a retomada, mas cauteloso com a velocidade”. As projeções do Bahia Asset de crescimento do PIB para 2019 e 2020 são de, respectivamente, 2,6% e 2,9%.

Ele é outro que cita a questão do decurso de tempo entre a intenção do governo de tomar boas medidas, como a reforma da Previdência, e o momento em que os agentes do mercado avaliam ser de fato muito provável que o governo consiga aprová-las – o que os faz incorporarem esta perspectiva positiva de forma quase integral nos seus preços e nas suas decisões de consumo e investimento.

No caso da Previdência, é bom lembrar, por enquanto Bolsonaro e sua equipe econômica nem mesmo apresentaram qual será a proposta.

A mesma defasagem descrita pelo economista é válida para outras áreas da atual agenda econômica, como abertura comercial, competitividade e revisão do papel do Estado. Nestas áreas, contudo, analisa Brisola, há o complicador de que são em parte medidas disruptivas e que mexem nas regras do jogo – no curtíssimo prazo, podem até frear decisões de investimento, embora com certeza aumentem muito o crescimento potencial num segundo momento não muito distante.

Mas o analista da Bahia Asset também vê “risco positivo” para o crescimento em 2020, caso a agenda econômica anunciada seja implementada.

“Se implementarem 30% do que o Paulo Guedes anunciou, nós daremos um grande salto de produtividade e na organização do Estado – pode ser uma avenida para o aumento do produto potencial”, diz Brizola.

De qualquer forma, a mecânica da conversão de uma retomada cíclica da economia (a que normalmente vem após uma recessão) num período de crescimento sustentado mais longo é complexa, como nota Flávio Serrano, economista-sênior do Haitong Bank.

A taxa de investimento brasileira está muito baixa, mal chega a 16% do PIB, e o próprio ajuste fiscal – fundamental e que num segundo momento abre espaço para o aumento do investimento público – na partida restringe ainda mais as inversões do governo. Dessa forma, é preciso aumentar o investimento privado e público, mas a ordem dos fatores é complexa, porque às vezes o primeiro é estimulado pelo segundo, que, num primeiro momento, está restrito.

E há finalmente a questão do consumo das famílias, o maior componente do PIB. Aí as visões variam. Brisola se diz relativamente otimista, pelo fato de as famílias já terem desalavancado (reduzido dívidas) bastante e os bancos estarem em boa forma e dispostos a emprestar. Já Serrano preocupa-se com o nível ainda muito alto do desemprego e sua lenta queda, o que segura o consumo.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 8/1/2019, terça-feira.