Feliz com o Trump, Krugman?

Ironicamente, o presidente eleito dos EUA, um populista de direita, pode acabar fazendo o que o prêmio Nobel de Economia Paul Krugman, militante de esquerda, vem insistindo há anos para que seja feito.

Fernando Dantas

14 Novembro 2016 | 17h20

“Talvez se Paul Krugman soubesse o que Trump ia fazer na economia, teria votado nele”, brinca Samuel Pessoa, sócio e economista-chefe da gestora Reliance. A sugestão, evidentemente, é quase um sacrilégio. Krugman, prêmio Nobel de Economia, é conhecido por sua incansável militância em prol das causas de esquerda nos Estados Unidos, já tendo se envolvido em ásperas polêmicas com celebridades econômicas à sua direita.

A grande ironia, porém, como nota Pessoa, é que ao, eleger Trump, talvez a direita populista tenha colocado no poder “o presidente mais keynesiano desde (Franklin) Roosevelt, que vai fazer o que o Krugman vem pedindo desde a crise global – gastar muito em infraestrutura, aumentar brutalmente o déficit público, provocar inflação e tirar os Estados Unidos da armadilha de liquidez”.

Na verdade, Trump também quer cortar impostos, de uma forma que deve beneficiar mais os ricos. Neste ponto, Pessoa tem certa dúvida se ainda há espaço para muita redução de tributo, já que os Estados Unidos têm um baixo nível de taxação dentro do mundo avançado, e as desonerações da era Reagan não foram desmontadas.

De qualquer forma, há espaço para aumentar investimentos em infraestrutura, como anunciou o presidente eleito. O curioso, porém, é que cortar impostos é de fato uma política preferencial do Partido Republicano, mas aumentar gastos em investimentos públicos em infraestrutura tem mais a cara do Partido Democrata. Resta ver, portanto, se Trump terá apoio para esses planos de investimento no Congresso, dominado nas duas Casas pelos Republicanos do seu partido.

Pessoa observa que a política monetária nos Estados Unidos claramente já bateu nos seus limites, com um longo período de taxas de juros baixíssimos e muita liquidez tendo sido injetada nos mercados pelos programas de compra de títulos de longo prazo pelo Federal Reserve (Fed, BC norte-americano).

Toda essa dinheirama rodando pelo sistema não provocou inflação, embora, dado que a economia americana conseguiu voltar a crescer num ritmo não tão medíocre quanto o da Europa do Japão, também não se pode dizer que não teve nada do efeito planejado. Ainda assim, com a inflação muito baixa e recorrentes temores de que a atividade possa voltar a fraquejar, pode-se dizer que também os Estados Unidos enfrentam o fantasma da “armadilha de liquidez”. Esta é a situação descrita por Keynes em que, nem com todo o dinheiro do mundo nas mãos, as empresas investem firmemente e as pessoas consomem com vontade. Daí que a demanda fica enfraquecida e a atividade não engrena, com o risco adicional de a economia entrar em deflação, o que agrava o problema.

A reação dos mercados nos últimos dias, com alta dos juros americanos e, consequentemente, do dólar, indica que há uma aposta que, de fato, a política econômica de Trump vai provocar mais crescimento, mais inflação e juros mais altos. As promessas do candidato de mais protecionismo são um ingrediente inflacionário a mais, ao reduzir – se cumpridas – a oferta de bens.

Pessoa frisa que algum aumento da inflação nos Estados Unidos, que garanta uma vitória definitiva sobre a armadilha da liquidez, é algo desejável para a maior economia do mundo – evidentemente, tudo é uma questão de dosagem.

Para o Brasil, entretanto, se Trump fizer o que Krugman queria e tiver êxito, trata-se de uma má notícia. Os juros internacionais vão subir e a “janela” para um ajuste fiscal gradual pode se fechar.

“A gente precisa de muita paciência do mundo, já que vamos testar 90% a 100% do PIB na nossa dívida pública, que é muito cara, mesmo que façamos tudo certo”, alerta Pessoa.

Uma esperança para o Brasil (e um risco para os Estados Unidos) é que, como no caso do Japão, mesmo todo o déficit público que Trump provocar não tire a economia americana do lodaçal do baixo crescimento e inflação e juros superbaixos. O economista da Reliance, entretanto, frisa que, no caso japonês, o aumento do déficit público foi acompanhado da ampliação neutralizadora da poupança privada, um fenômeno que pode não se repetir nos Estados Unidos. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast                

Esta coluna foi publicada no Broadcast em 14/11/16