Filigranas que valem dinheiro

Mercado se alvoroça para interpretar falas dos dirigentes do BC e antecipar próximos passos do aperto monetário.

Fernando Dantas

15 de junho de 2015 | 23h55

A ata hawkish (postura de rigor anti-inflacionário) da reunião do Copom do início de junho e o elevado IPCA de maio (0,74%) mexeram com os nervos do mercado, levando algumas casas a fazer expressivas elevações da projeção do orçamento de elevação da Selic do atual aperto monetário. Na sexta-feira (12/6/15), uma breve entrevista do diretor de assuntos internacionais do Banco Central (BC), Tony Volpon, na entrada do Hotel Copacabana Palace, provocou mais algumas emoções. Volpon participou da reunião do Grupo dos 30 (economistas e presidentes e ex-presidentes de banco central de renome mundial)  no Rio.

Parte do mercado apegou-se a uma resposta de Volpon sobre a reação do mercado à ata, que foi a de considerá-la bastante hawkish. A frase literal do diretor do BC foi:

“O Banco Central tem uma estratégia já bastante explicada e conhecida e estamos seguindo essa estratégia. Acho que um pouquinho, quer dizer, a ata foi lida um pouquinho em função do IPCA, então estava um meio influenciando a interpretação do outro, mas eu acho que a ata estava dizendo o seguinte: olha, a gente tem uma estratégia, a estratégia é levar a inflação à meta no final de 2016, e nós temos confiança total que conseguimos fazer isso”.

A interpretação foi de que Volpon teria dito que a leitura da ata foi demasiadamente hawkish por ter sido influenciada pelo alto IPCA.

O comentário de Volpon, porém, foi apenas um rápido preâmbulo para um bem estruturado discurso sobre as vantagens de ter como objetivo trazer o IPCA para 4,5% em 2016, e não em 2017 ou mais para o futuro. Ele disse também de forma muito deliberada que estava “pessoalmente feliz” com a nova visão do mercado de que o BC se tornou hawkish. “Isso indica que a gente está chegando no lugar certo”, afirmou.

Em seguida, o diretor explicou que a data fixada para trazer o IPCA ao centro da meta não pode ser nem tão perto que seja impossível, nem tão longe que não crie constrangimentos no presente. Uma data longínqua, ele explicou, “não ia influenciar o comportamento dos agentes econômicos nem do Banco Central hoje”.

Volpon também disse que uma data mais distante faria com que a inflação hoje fosse mais alta. Ele comparou o dilema entre uma data mais próxima ou mais distante ao de um regime. Se a pessoa disse que vai emagrecer no Natal, “isso não vai constranger o comportamento dela agora”.

A segunda parte da mensagem foi de que o BC permanece convicto de que é possível chegar aos 4,5% em 2016.

“Eu acho que é tempo hábil para a economia se ajustar. É um ano e meio, temos um ano e meio de luta. Isso aqui vai ser uma maratona, não é uma corrida (curta). Por isso que a gente colocou na ata perseverança, paciência, essas palavras são importantes nesse sentido”, explicou Volpon.

Ele também relatou que tem conversado muito com os técnicos encarregados das projeções do BC, e que tem total confiança, baseado nessas previsões, de que “é sim possível levar a inflação à meta no final do ao 2016)”. O diretor acrescentou que estaria havendo uma discussão técnica com o mercado sobre “o tamanho da inércia inflacionária que a gente está enfrentando”, mas que o BC conta com a política fiscal para cravar os 4,5% em 2016.

O Banco Central, na verdade, tem a visão de que a ata foi coerente com seu discurso pré-ata, e que o contexto econômico descrito no documento não é incongruente com o alto IPCA de maio. O mercado, porém, busca interpretar os mínimos sinais neste momento desafiador para o Banco Central, já que, naturalmente, filigranas podem significar muito dinheiro sendo trocado de mãos. (fernando.dantas@estadao.com) (colaborou Idiana Tomazelli)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 12/6/15, sexta-feira.

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