Fim da “hiperglobalização“?

Artigo de Dani Rodrik desenha cenários bons e ruins para fase de retração da globalização. José Tavares, especialista brasileiro, tem uma perspectiva diferente, mas não oposta.

Fernando Dantas

10 de maio de 2022 | 19h49

Em artigo publicado ontem pelo site de distribuição Project Syndicate, o economista Dani Rodrik, de Harvard, escreve sobre seus cenários globais diante do que chama de “fim da hiperglobalização pós-1990”.

O fim dessa era, na visão do renomado pesquisador, teria vindo na esteira da crise financeira global de 2007-08, da pandemia e agora da guerra da Ucrânia.

Ele menciona, como marcas do fim da hiperglobalização, o recuo da participação do comércio internacional no PIB global desde 2007 (com destaque para o recuo de 16 pontos percentuais da relação entre as exportações e o PIB da China); a parada na disseminação das cadeias globais de produção; os fluxos de capitais hoje em nível inferior a 2007; e o aumento da presença e importância de políticos populistas antiglobalização nos países avançados.

Em seguida, o economista lista os fatores que teriam minado a hiperglobalização: tensão entre especialização e diversificação dentro dos países; problemas de distribuição de renda; desvio de poder decisório de políticos eleitos no país para tecnocratas ligados à ordem internacional; e questões geopolíticas e de segurança nacional.

Finalmente, Rodrik traça três cenários possíveis para a atual era pós-hiperglobalização. O pior deles seria um volta aos anos 30, com os países regredindo a autarquias. Outra possibilidade não tão ruim, mas ainda negativa, seria um período de supremacia da geopolítica, caracterizado por guerras comerciais e sanções econômicas.

Mas ele também vê chances de um terceiro cenário que considera bem positivo, no qual se reequilibram as prerrogativas dos Estados nacionais e de uma economia aberta. Para isso, é preciso curar as feridas da hiperglobalização, revivendo o espírito do pós-guerra, quando a economia global servia aos objetivos socioeconômicos internos dos países, e não o contrário.

Para atingir esse terceiro e melhor cenário, seria preciso ainda que os países não fossem levados por questões de segurança nacional à agressão contra outros países – o exemplo óbvio é a Rússia. E, por fim, que as potências, em particular os Estados Unidos, desistissem da supremacia global, parando de enxergar a ascensão de outras potências – China, no caso – como ameaça.

O economista José Tavares, do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (Cindes), no Rio, considera que Rodrik traz questões muito pertinentes em seu artigo, mas critica alguma das perspectivas do pesquisador de Harvard.

De início, Tavares questiona o conceito de “hiperglobalização” que Rodrik aponta sobretudo a partir dos anos 90.

Segundo o diretor do Cindes, houve mudanças a partir de meados dos anos 80 que aceleraram muito a globalização. Uma das principais foi a tecnologia da informação, que derrubou de forma inimaginável o custo da comunicação. O maior exemplo hoje são telefonemas e reuniões a distância entre quaisquer pontos do globo a custo literalmente zero.

Também aconteceu grande queda do custo de transporte, com os portos chineses e outros  asiáticos saindo de sistemas de gestão centralizados e atrasados para padrões iguais ou até melhores do que os dos melhores portos ocidentais.

Foi nessa época ainda que muitos países emergentes derrubaram e reduziram barreiras comerciais, seguindo o exemplo precedente das nações avançadas. Em 2001, a China entrou na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Todas essas mudanças, na análise de Tavares, propiciaram uma aceleração muito forte da globalização –  ainda mais saindo de um nível de economias ainda muito fechadas nos anos 80 –, mas que levaria naturalmente a um novo patamar mais estável, a partir do qual aquele ritmo inicial não teria como se manter.

“As cadeias de produção de maneira geral já foram fragmentadas o que tinham que ser”, ele diz.

Por outro lado, Tavares concorda em linhas gerais com o economista de Harvard em relação aos males que o diretor do Cindes interpreta mais como “excesso de liberdade para as empresas” do que como “hiperglobalização”, no período apontado por Rodrik.

Assim, as multinacionais faziam o que queriam, pagavam o salário que quisessem onde quisessem e só cuidavam do meio ambiente ou evitavam corrupção em países onde essas mazelas fossem combatidas pelo governo nacional. No mundo financeiro, a desregulamentação e a liberdade de fluxos de capitais eram estendidas e aplaudidas até o desastre da grande crise financeira global.

Só que, como é natural ao processo histórico, esses excessos e desvios começaram a ser paulatinamente criticados e combatidos.

“O movimento antiglobalização resultou desse capitalismo desregrado”, aponta o economista.

Na sua visão, toda a pauta ESG (autorregulação ambiental, social e de governança nas empresas) nasceu desses embates, assim como – acrescenta a coluna – as iniciativas para combater paraísos fiscais e estabelecer taxação mínima das multinacionais.

“Hoje, na OECD e outras organizações internacionais, questões como corrupção, governança, mudança climática, relações de trabalho etc. estão na mesa”, diz o pesquisador.

Nada disso, porém, na visão de Tavares, configura “desglobalização”, mas simplesmente o processo, que ainda está longe de perfeito e acabado, de regulamentar e conduzir melhor a globalização.

Para o economista, a globalização vai continuar porque os fatores que estão na sua base continuam se expandir e se aprofundar. Com o advento do 5G, a eficiência e barateamento das comunicações vão prosseguir. A própria pandemia ensinou ao mundo que reuniões, congressos e eventos internacionais podem ser feitos de forma remota, a custo mínimo, e as novas tecnologias tornarão essas interações à distância cada vez mais satisfatórias.

Os serviços, tradicionalmente um setor “não negociável internacionalmente”, amplia cada vez mais a sua internacionalização, também nas asas da tecnologia. Hoje já é possível fazer até cirurgias remotamente.

Evidentemente, ressalva o economista, sempre é possível alguns retrocessos na globalização, como no caso de produtos farmacêuticos e bélicos, na esteira de eventos como a pandemia e a guerra da Ucrânia. Mas não há como exceções frearem um movimento geral de natureza tecnológica e econômica.

Finalmente, em relação ao conflito entre China e Estados Unidos, Tavares nota que, desde o início do capitalismo, os países tentaram proteger suas empresas na fronteira da tecnologia, das mais diferentes formas, típicas de cada época. Assim, essa tensão deve persistir, mas não é como se houve surgido um novo fator que vai interromper a integração econômica mundial.

Tavares considera que a capacidade atual das instituições internacionais está aquém do necessário para regulamentar a globalização, e por isso problemas continuarão a surgir e uma pauta de ajustes se fará presente. A OMC, por exemplo, por uma série de razões, foi esvaziada nas últimas décadas, e tem que retomar sua capacidade de regular e arbitrar o comércio internacional.

“Não vamos voltar ao mundo em que economistas e empresários batiam palmas sem parar para a globalização, o livre comércio e o livre movimento de capitais, e os Estados nacionais devem reforçar a capacidade de fiscalização das empresas que atuam em seu território”, ele afirma.

Mas isso é diferente, na sua visão, de um mundo que retrocede na integração econômica.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 10/5/2022, terça-feira.