Fim do forward guidance

Por que boa parte do mercado previa (acertadamente) que o Copom iria (como fez) encerrar hoje, 20/1, a "prescrição futura" de política monetária introduzida em agosto de 2020.

Fernando Dantas

20 de janeiro de 2021 | 21h03

Uma expressiva corrente de mercado acredita que o Banco Central deve terminar hoje com o seu “forward guidance”, ao fim de mais uma reunião do Copom, cujo comunicado está previsto para o final da tarde. Quanto à Selic, a previsão geral é de que ainda permanecerá em 2%.

(a coluna foi escrita antes da decisão do Copom, que efetivamente manteve a Selic em 2% e encerrou o forward guidance)

O forward guidance, ou prescrição futura, na tradução do BC, foi introduzido na reunião de agosto do ano passado – e, portanto, a se confirmar a previsão de vários analistas, terá vida curta.

No comunicado da reunião de agosto, o Copom escreveu que não antevia reduções da Selic, a não ser que as expectativas de inflação e as projeções inflacionárias do seu cenário básico estivessem “suficientemente” próximas da meta no horizonte relevante de política monetária. Acrescentou que aquela intenção se condicionava à manutenção do regime fiscal e à ancoragem das expectativas de inflação de longo prazo.

Na ata da reunião de agosto, o BC detalhou as motivações para esse arranjo e chamou-o diretamente de forward guidance, ou prescrição futura.

As metas de inflação para 2021 e 2022, atual horizonte relevante da política monetária, são de, respectivamente, 3,75% e 3,5%.

A expectativa mediana do Focus mais recente aponta IPCA de 3,34% em 2021 e de 3,5% em 2022. As últimas projeções do BC em seu cenário básico, que constam do RTI de dezembro, são de IPCA de 3,4% tanto em 2021 quanto em 2022.

Segundo um experiente gestor baseado no Rio de Janeiro, as expectativas e projeções já estão próximas das metas e o BC tem condição de dizer que o forward guidance já cumpriu o objetivo para o qual foi criado.

À época, observa o gestor, havia o temor de que a inflação, então muito baixa, com o hiato do produto muito aberto, pudesse levar a uma queda das expectativas inflacionárias mais longas (com o acompanhamento, claro, de uma economia mais deprimida do que precisaria ser).

Vivia-se ainda uma fase da pandemia em que predominavam as preocupações relativas ao colapso econômico (que acabou sendo menor do que o imaginado) e suas consequências mais adiante.

Na realidade, entretanto, após a introdução do forward guidance as expectativas inflacionárias subiram, e hoje não parece haver risco de desancoragem “para baixo”, pelo que se depreende das expectativas, das projeções do BC e da inflação implícita na comparação entre juros pré e pós fixados.

“O propósito foi atendido”, diz o analista. Ele não quer dizer que necessariamente o forward guidance foi a causa principal do fim do risco de desancoragem para baixo das expectativas (houve enormes choques de câmbio e alimentos), mas sim que esse é um discurso plausível para a autoridade monetária.

Carlos Kawall, diretor do Asa Investments, acrescenta que, se o  forward guidance for retirado hoje na reunião do Copom – o que também é a sua aposta –, “O BC vai agir pelo bom motivo, que é a recuperação e a inflação indo para a meta, e não pela questão fiscal, que seria um mau motivo e um mau sinal”.

A grande questão, entretanto, é saber o que o BC sinalizará sobre o futuro da Selic no lugar do forward guidance, se de fato este for retirado.

Tanto na visão do gestor mencionado acima como na de Kawall, a preocupação maior será a de reforçar o que já foi dito recentemente na comunicação do BC, de que o fim do forward guidance não significa dizer que já há um aumento da Selic engatilhado.

Na verdade, como frisam os dois, a retomada econômica, que foi quase entusiasmante no último trimestre, deve arrefecer neste início de ano, e não será apenas pelo muito martelado temor do fim dos auxílios.

Dois fatores novos, entrelaçados, entraram em ação para jogar água na fervura: a segunda onda da Covid, que se revelou tão ruim quanto os cenários mais pessimistas de alguns meses atrás , e a perspectiva de atrasos significativos da vacinação no Brasil – o que se agrava pela condução absolutamente desastrada da questão pelo governo brasileiro.

Não se espera que a segunda onda leve a lockdowns e isolamento social da magnitude dos ocorridos na primeira onda, mas a visão é de que colocará algum freio na normalização da economia, principalmente dos serviços.

Mundo afora, aqueles dois efeitos – gravidade da segunda onda, problemas na vacinação – também se combinam para turvar o cenário de atividade.

Dessa forma, é bem razoável que o BC queira alguns meses para observar como a economia reagirá a esses múltiplos choques. No caso brasileiro, será também o tempo necessário para avaliar como ficará a política fiscal em 2021, e como isso afetará os indicadores econômicos e financeiros mais importantes.

Assim, é mais provável que o BC deixe uma elevação inicial da Selic para meados do ano, e não haveria, portanto, necessidade de sair sinalizando o próximo movimento agora.

Mas e se o BC surpreender e não retirar o forward guidance hoje?

“Nesse caso”, diz Kawall, “seria como aquela situação em que já morreu, mas não se sabe se enterra agora ou depois”.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada em 20/1/2021, quarta-feira.