Finalmente, a autocrítica

Embora não tenha sido responsável pela política econômica do primeiro mandato de Dilma Rousseff, o ex-diretor de Política Econômica do BC Luiz Awazu Pereira teceu a melhor "auto-crítica" do período, no seu discurso de despedida do cargo, que deixou recentemente para se tornar vice-gerente geral do Banco para Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês), em Basileia, na Suíça.

Fernando Dantas

29 Setembro 2015 | 18h39

No seu discurso de despedida do Banco Central para economistas e profissionais do mercado, Luiz Awazu Pereira, que deixou a diretoria de Política Econômica do BC para se tornar vice-gerente geral do Banco para Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês), fez a autocrítica da política econômica da presidente Dilma Rousseff que a própria presidente jamais realizou. Evidentemente, o termo ‘autocrítica’ aqui deve ser empregado com flexibilidade, pois Awazu não foi responsável pela política econômica dos últimos anos. O discurso foi proferido na sexta-feira (25/9/15), na Câmara de Comércio França-Brasil, em São Paulo.

Com o título ambicioso de “O nosso Ensaio sobre a Lucidez”, o discurso de Awazu – que ele fez questão de caracterizar como pessoal, e não ligado institucionalmente ao BC – aborda vários temas da economia, da política, das finanças, da política monetária e até da teoria do conhecimento, tendo como objeto principal o mundo pós-crise global. O ex-diretor do BC alerta contra “a degradação da civilidade das nossas disputas”, uma referência provável ao clima polarizado e belicoso que tomou conta do de debate público no Brasil.

A parte chave do discurso de Awazu é quando ele diz que “talvez usamos excessivamente nosso colchão contracíclico; já ouvi isso muitas vezes, é hoje praticamente um consenso”. Antes disso, havia elogiado a política contracíclica inicial do Brasil na crise global, ligando-a à “preservação do nosso modelo de sucesso de inclusão social”.

Segundo o ex-diretor do BC, os excessos contracíclicos no Brasil estão internamente ligados à economia política que “favorece naturalmente a pulverização do gasto público”. Ele lembrou ainda que “muitos, e até a nossa elite empresarial e financeira, conclamaram a necessidade de desonerações tributárias que nos custam muito hoje, pediram e obtiveram mais subsídios e mais créditos direcionados”.

No que talvez seja o ponto mais contundente da crítica à política econômica do primeiro mandato de Dilma, ele acrescentou que “ou seja, e é claro que é mais fácil dizer agora, foi muito além do prudente; e, apesar das nossas instituições, não soubemos escolher, arbitrar para não atender todo e qualquer pedido”.

Mas um aspecto particularmente interessante do discurso – que, de certa forma, introduz a autocrítica – é quando Awazu menciona o que chamou de “macro-populismo financeiro”, para caracterizar o ambiente de complacência e bolha de ativos que antecedeu a crise de 2009 e 2009 – indicando que o populismo não se limita ao expansionismo fiscal e monetário de emergentes. Na verdade, o economista fez uma ligação entre os dois populismos – o do “Norte” e o dos países emergentes, embora em nenhum momento ele explicitamente use este termo para caracterizar a política econômica brasileira.

Tratando do expansionismo fiscal e monetário que decorreu do estouro da bolha do “macro-populismo financeiro”,  Awazu disse que “a resposta à crise global nos países avançados criou o que eu chamaria de ‘complacência global’ em matéria de ‘policy’”. Os juros zerados, o achatamento da curva pelo afrouxamento quantitativo e a recomendação de políticas de impulso à demanda pelo FMI e o G20 teriam impulsionado as políticas econômicas dos países em geral na direção de mais gastos e estímulos ao consumo e ao investimento. “Isso vinha das instituições e dos países que sempre nos davam lições de austeridade”, comentou o economista, lembrando ainda que a euforia do dinheiro fácil também se disseminou na mídia e na sociedade brasileira.

Para ele, assim como a China pós-crise global estimulou sua economia “reforçando seu velho modelo de mais investimento”, o Brasil também reforçou “o que sabíamos fazer, consumo e crédito”. Awazu também afirmou que “a economia política é invariavelmente expansionista”, e que até os equilibrados países nórdicos se deixaram levar pela euforia dos anos iniciais do euro.

Curiosamente, o economista retoma a ideia do “fator externo” da crise brasileira, mas por um ângulo diferente. A ênfase agora não é nos problemas da economia real e na instabilidade financeira – embora estes também tenham contado, é óbvio –, mas sim na superestrutura ideológica que dá suporte e influencia as políticas econômicas.

O que talvez pudesse ser contraposto ao argumento de Awazu é que outros países latino-americanos, como Chile, Peru e Colômbia, conseguiram calibrar melhor suas políticas econômicas no mesmo ambiente de incentivos globais ao expansionismo. Isto mostra como um dos deveres fundamentais dos governos é o de atuarem como uma espécie de contrapeso aos impulsos da economia política, especial mente numa região com o histórico de instabilidade macroeconômica como a América Latina.

De qualquer forma, a autocrítica do ex-diretor do BC é algo que deveria ser retomado pelo governo, porque abre espaço para a tão necessária negociação de um pacto com o conjunto das forças políticas para resolver o impacto final. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 28/9/15, segunda-feira.