Firmeza na decisão sobre swaps

Decisão sobre congelamento do estoque de swaps cambiais indica disposição da nova equipe econômica de aceitar depreciação e fazer ajuste rápido da economia.

Fernando Dantas

30 de março de 2015 | 17h03

A decisão de congelar o estoque de swaps cambiais – não colocando novos contratos, mas rolando integralmente os vencimentos – é mais um indicativo de que o governo tomou o caminho de um ajuste rápido da economia. A natureza da correção é ortodoxa e liberal, e tudo indica que ela represente a vitória das concepções do novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, sobre o pensamento desenvolvimentista que predominou no primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff.

Apesar de ser um heterodoxo moderado, o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, provavelmente endossa a visão do ajuste rápido, especialmente em relação ao câmbio.

A nova política econômica tem como base a crença nos benefícios dos preços livres ou pelo menos ajustados às realidades de mercado. Assim, o ajuste acontece no câmbio, nos preços administrados e também – embora tenha apenas se iniciado – no preço do próprio dinheiro, isto é, nos juros. Apontam nesta última direção a contenção dos bancos públicos, que concentram o crédito subsidiado, e a alta da TJLP em direção à Selic (supondo que o processo prossiga).

A conta de boa parte desse ajuste, porém, está caindo no colo do presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini. Com o ajuste do câmbio e principalmente dos preços administrados, as estimativas para o IPCA de 2015 já ultrapassaram 8%, muito acima do teto de tolerância do regime de metas, de 6,5%. Por outro lado, a contenção do crédito público e a redução relativa do crédito direcionado (comparado ao livre) ajudam o BC.

Poderia ser argumentado que uma estratégia ainda mais agressiva de ajuste contemplaria uma redução gradual do estoque de swaps, que supera US$ 110 bilhões. É possível que o congelamento do estoque tenha sido um acordo entre levar em conta os objetivos da Fazenda e do BC. Mas diminuir o estoque neste momento de turbulência, o que corresponderia a aumentar a demanda por ativos dolarizados, talvez fosse por lenha demais na fogueira cambial mesmo para Levy. Além disso, não é má ideia guardar a possibilidade de reduzir a rolagem dos swaps num hipotético segundo momento em que a economia esteja reestabilizada, para regular uma eventual reapreciação do câmbio.

Juan Jensen, economista-chefe da consultoria Tendências, nota que a política cambial de Dilma apresentou uma série de fases muito distintas. A partir de 2012, houve uma tentativa, com algum resultado efetivo, de depreciar o câmbio a partir de uma visão de política industrial e da necessidade de reforçar a competitividade da indústria. Várias medidas de restrição de fluxo foram tomadas.

Posteriormente, o movimento de alta global do dólar, que teve um dos seus primeiros soluços mais intensos em meados de 2013, pegou o Brasil numa situação de fortes pressões inflacionárias. A política cambial foi totalmente invertida, não só com o relaxamento das restrições ao fluxo como com as “rações” de swaps e leilões de linhas.

A chegada de Levy e Barbosa ao governo prenunciou desde o início que essa segunda fase estava com os dias contados. Os dois deram declarações que sinalizavam apoio a uma flutuação menos restrita, o que levaria à depreciação na atual conjuntura. Mesmo que alguns desses pronunciamentos tenham sido posteriormente retificados, o mercado entendeu a mensagem.

O real chegou a se apreciar um pouco pelo efeito de credibilidade da nova equipe no início do ano, mas com a combinação de intensificação da alta global do dólar, de dúvidas sobre o cumprimento da meta fiscal e de crescentes problemas políticos, a moeda brasileira engatou outro estirão de perda de valor. A equipe econômica, entretanto, reagiu de forma fleumática à nova rodada de depreciação, deixando clara sua aceitação de um ajuste mais rápido.

Na atual situação de demanda combalida, Jensen acha que a transmissão cambial à inflação é um problema bem menor em 2015 do que a correção dos preços administrados. Pelas suas contas e projeções, o aumento médio da tarifa elétrica no ano em todo o Brasil será de 68%, sendo que uma alta de 45% já ocorreu no primeiro trimestre.

De qualquer forma, a correção rápida da economia que a equipe econômica tenta implementar – supondo que as dificuldades políticas para fazer o ajuste fiscal sejam contornadas – já está deixando uma corrente do mercado mais otimista em relação a 2016. Uma inflação corretiva elevada em 2015, se combinada com uma política monetária adequadamente apertada, melhora as perspectivas inflacionárias para o próximo ano, segundo esta visão. Além disso, o câmbio depreciado pode contribuir para a redução do desequilíbrio externo. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 25/3/15, quarta-feira.

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