Flávio Bolsonaro e a estratégia para a Previdência

Governo montou uma abordagem mais política para vender a reforma da Previdência ao Congresso que tem chances de funcionar. Mas escândalo envolvendo Flávio Bolsonaro põe em risco capital político da "lua de mel" de Bolsonaro, o que não ajuda em nada.

Fernando Dantas

21 de janeiro de 2019 | 19h24

É difícil prever como vai se desdobrar o escândalo envolvendo Flávio Bolsonaro em termos das chances de o governo Bolsonaro aprovar a reforma da Previdência – e em termos de qual reforma da Previdência será (se for) aprovada.

O mercado testa hoje as últimas revelações, acerca de dezenas de depósitos que pingaram na conta do senador e filho do presidente, e o volume de R$ 7 milhões que passou pela conta de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio, em três anos.

O analista político Ricardo Ribeiro, da MCM Consultores, observa que o escândalo atinge um ponto central da plataforma e do discurso bolsonarista, de combate à corrupção. Junto com outros problemas na largada do mandato presidencial, como o bater de cabeças entre diferentes alas do governo e os desentendimentos dentro do PSL, partido governista, os problemas de Flávio Bolsonaro enfraquecem a mão de seu pai na negociação com o Congresso.

Isso aponta tanto para a possibilidade de que Bolsonaro tenha que fazer mais concessões à “velha política”, o que poderia em tese dificultar a aprovação de uma reforma da Previdência mais dura.

Por outro lado, pode-se evoluir também para um cenário em que o presidente se aferre mais à agenda do superministro Paulo Guedes – uma das poucas áreas do governo que mantém seu prestígio intacto. Neste segundo caso, Bolsonaro pode comprar a ideia de que uma reforma da Previdência mais contundente pavimentará o caminho para uma retomada da economia mais vigorosa, o que pode escorar sua popularidade diante do desgaste causado pelo caso de Flávio Bolsonaro.

Fonte próxima ao governo nota que, independentemente do escândalo envolvendo o senador do PSL, o governo vem montando uma estratégia política para a aprovação da reforma da Previdência superior àquela empregada por Michel Temer.

No caso de Temer, a proposta foi enviada ao Congresso em dezembro de 2016 e, depois disso, colocou-se um técnico, o então secretário de Previdência do Ministério da Fazenda, Marcelo Caetano, para conversar com os políticos e explicar a reforma. O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, por vezes exercia o mesmo papel, e, num momento subsequente, Eliseu Padilha, ministro-chefe da Casa Civil de Temer, entrou no jogo, mas não de forma cotidiana. Era uma estratégia de convencimento árida, com longas apresentações de Power Point que entediavam os políticos, e um discurso muito técnico.

Na nova estratégia, Paulo Guedes convidou, para ser secretário da Previdência, Rogério Marinho, um tarimbado político, deputado não reeleito pelo PSDB do Rio Grande do Norte, e que tem no currículo a relatoria da Câmara da bem-sucedida (para seus defensores) reforma trabalhista de Temer, que acabou saindo, isto é, sendo aprovada, mais dura do que entrou.

Marinho está trabalhando com a mesma equipe técnica de Marcelo Caetano, à qual foram agregados os técnicos da Casa Civil que ajudaram Padilha na reforma da Previdência. O time também incorporou Leonardo Rolim, o consultor da Câmara experiente no tema, como secretário-adjunto de Previdência.

Segundo relato da fonte, Marinho dá liberdade para os técnicos trabalharem e já vem testando as diversas ideias diretamente com deputados, senadores, associações da Polícia Militar, militares, além de conversar semanalmente com o próprio presidente da República.

O secretário da Previdência é descrito como “um político de voz mansa e baixa, que consegue explicar toda a reforma em 15, 20 minutos, numa linguagem que os políticos entendem”.

Adicionalmente, Marinho mantém contato com especialistas e envolvidos com o tema da Previdência fora do governo, no eixo Rio-São Paulo, como Paulo Tafner, Arminio Fraga e Fabio Giambiagi, entre outros.

No Congresso, Marinho consegue mapear – e passar para Paulo Guedes – bem mais efetivamente os pontos mais e menos difíceis de aprovar na reforma, e quem se opõe a que ponto e por quê.

Outro fator favorável à reforma da Previdência é o fato de que muitos dos novos governadores vêm falando na necessidade de ajuste fiscal e da própria reforma. O governo alimenta esperança, inclusive, de que, na reunião do Fórum de Governadores de fevereiro, os governadores fechem uma posição a favor da reforma e da sua aplicação imediata nos Estados.

É evidente, por outro lado, que o jogo para valer só começa quando os trabalhos no Congresso se iniciarem em fevereiro. E, apesar de toda estratégia montada, uma deterioração mais forte do capital político inicial de Bolsonaro em função do escândalo em torno do seu filho senador vai atrapalhar os planos.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 21/1/19, segunda-feira.