Flexilidade e cautela

A exegese das escrituras da autoridade monetária.

Fernando Dantas

14 Dezembro 2017 | 00h38

A ata do Copom divulgada na terça-feira, 13/12, em princípio não trouxe grandes revelações, sendo considerada “levemente dovish” por algumas casas, como o Safra. Um exegeta rigoroso das escrituras da autoridade monetária, entretanto – analista de uma gestora de recursos –, considera que a ata clarificou o recado do comunicado pós-reunião, e traçou um roteiro mais claro do plano de voo do Copom para as reuniões de fevereiro e março.

A ata – ou as “notas”, como prefere chamar o Banco Central – deixou claro, nessa interpretação, que a “cautela” recomendada “para frente” no comunicado se refere especialmente ao período posterior à reunião de 6 e 7 de fevereiro – isto é, basicamente a reunião de 20 e 21 de março.

Em relação a fevereiro, vale a abordagem do “two-sided risks”, ou riscos para os dois lados, do título do relatório divulgado na terça, 13/12, pelo Safra (o analista mencionado acima não é do Safra).

A visão é de que a principal aposta para a reunião de fevereiro é mesmo de corte de 0,25 ponto porcentual (pp), que levaria a Selic a 6,75%, mas o Banco Central está se reservando espaço para, dependendo das circunstâncias, fazer algo diferente. Talvez até cortar 0,5 pp de novo, ou, quem sabe, nem cortar.

O risco otimista deriva, em primeiro lugar, do fato de que a inflação, teimosamente, continua a produzir surpresas positivas. Em particular, o nível muito confortável e baixo da inflação subjacente dos núcleos é reiterado várias vezes na ata.

Por outro lado, o Copom também ressalta o risco de o cenário inflacionário benigno ser interrompido “por uma frustração das expectativas sobre a continuidade das reformas e ajustes necessários na economia brasileira, em particular em um contexto de reversão do corrente cenário externo favorável para economias emergentes”.

A partir daí não é difícil de deduzir que, pelo lado favorável, a eventual combinação do comportamento exemplar da inflação com a aprovação do que restou da reforma da Previdência – o que seria uma surpresa positiva para o mercado e o BC a esta altura do campeonato, podendo se refletir em apreciação cambial – poderia reforçar as forças desinflacionárias e levar o Copom a optar por 0,5 pp em fevereiro.

Por outro lado, se o cenário mais esperado de não aprovação da reforma da Previdência neste governo se combinar com uma mudança na direção de redução do apetite por risco no mercado internacional, o câmbio poderia experimentar uma desvalorização mais pronunciada e levar, no extremo, à suspensão dos planos de qualquer corte da Selic em fevereiro.

Evidentemente, um cenário intermediário da combinação entre esses riscos em direções opostas é o mais provável, o que reforça o franco favoritismo do “call” de corte de 0,25 em fevereiro.

Já a mensagem da ata em relação a março, à qual se aplica a alusão à cautela, indicaria um eixo de possibilidades mais entre zero e 0,25 de corte, dado o estado já muito adiantado e quase perto do fim do ciclo de redução da Selic. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 13/12/17, terça-feira.