FMI pede investimento em infraestrutura

Documento do 'staff' do Fundo Monetário Internacional recomenda "impulso sincronizado" de investimento público em infraestrutura nos países para ajudar na retomada da economia global.

Fernando Dantas

26 de novembro de 2020 | 20h16

Em nota de acompanhamento sobre a recente cúpula virtual de chefes de Estado do G-20 organizada pela Arábia Saudita, o staff do Fundo Monetário Internacional (FMI) comentou que há sinais de que a retomada do mundo, depois do auge do impacto econômico da pandemia, pode estar perdendo fôlego.

O documento tem muito da sabedoria convencional para o atual momento, como recomendações de medidas “inteligentes” de contenção diante da segunda onda – testes, monitoramento e isolamento de infectados e uso de máscaras –; uma estratégia multilateral e coordenada de produção, aquisição e distribuição das vacinas em âmbito global; manutenção (para os países em condições) de estímulos monetários e fiscais; apoio aos grupos mais vulneráveis; e reformas econômicas.

Há, no entanto, um item que se destaca por não ser tão convencional assim, e de certa forma é até uma novidade em termos das recomendações do FMI. O Blog do FMI destacou o tema.

O documento, produzido pelo staff, e que não necessariamente reflete a visão do Comitê Executivo do FMI, propõe um impulso sincronizado (entre os países) de investimentos públicos em infraestrutura.

Os autores da proposta deixam claro que a contribuição de cada país para esse impulso sincronizado depende, claro, do “legado econômico e fiscal” da pandemia. Em outra palavras, a recomendação não é para que países fragilizados em termos fiscais, como o Brasil, saiam gastando em projetos de infraestrutura como se não houvesse amanhã.

Mas a ideia é que, com a grande capacidade ociosa que existe hoje no mundo, um adicional sincronizado de investimento em infraestrutura em diversos países pode ter um efeito mutuamente dinamizador, pelos canais do comércio internacional.

Segundo os cálculos mencionados no documento, o PIB global seria quase 2% maior em 2025 se as economias com espaço fiscal aumentassem o seu investimento em infraestrutura em 0,5 ponto porcentual (pp) do PIB em 2021, subindo para 1 pp do PIB em 2022, e mantendo o adicional neste nível até 2025.

Esse cenário também pressupõe que economias com “espaço fiscal em risco” realizem um aumento do investimento público em infraestrutura no período correspondente a 1/3 do que é feito pelas economias com espaço fiscal.

Por meio de cálculos econométricos, o staff do FMI estima que, se forem excluídos os efeitos mutuamente dinamizadores do fato de que o impulso na infraestrutura será sincronizado entre diversos países, o impacto de aumento do PIB mundial até 2025 seria reduzido a pouco menos de 1,2%.

Posto de outra forma, como escrevem os economistas, “seria necessário 2/3 a mais de gasto para haver o mesmo impacto no produto na ausência de transbordamentos [dos efeitos] entre países (…)”.

Segundo o staff do FMI, o impulso na infraestrutura deveria priorizar ‘investimentos verdes’, como projetos de trânsito de massa eficiente, redes elétricas ‘inteligentes’, retrofit de edificações para fortalecer a eficiência energética. Outra prioridade deveria ser a atividades intensivas em emprego de manutenção  de infraestrutura.

O economista Manoel Pires, especialistas em questões fiscais do Ibre/FGV e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, nota que, para o Brasil, provavelmente um país “com espaço fiscal em risco”, participar do ‘impulso sincronizado’ mencionado no documento significaria aumentar o investimento público em infraestrutura em 0,17 pp do PIB em 2021 e 0,33 pp a partir de 2022, o que parece “bem módico”.

Pires, que em nada subestima a difícil situação fiscal pela qual o Brasil passa, nota que a recomendação do staff do FMI pode ser melhor entendida como parte de uma busca global por fontes de crescimento após o auge do impacto econômico da pandemia.

“Em princípio eu não seria contra [a participação do Brasil no eventual ‘impulso sincronizado’], mas isso tem que ser avaliado no contexto de toda a nossa discussão fiscal do momento, em que entra o teto, o auxílio emergencial etc.”, conclui o economista.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 26/11/2020, quinta-feira.