Foco no capital humano

Economistas harmonizam diversos testes de aprendizado internacionais e regionais para criar base de dados comparáveis sobre capital humano cobrindo países com 98% da população mundial.

Fernando Dantas

23 de novembro de 2021 | 11h39

Boa parte dos economistas atualmente considera que o nível de educação de um país, o chamado capital humano, é um ingrediente fundamental do crescimento econômico sustentável de longo prazo.

Medir o capital humano dos países, entretanto, não é uma tarefa simples. A escolaridade, isto é, a média de anos de estudo, da população economicamente ativa (PEA) é uma medida de quantidade, mas que deixa de fora a qualidade da educação.

Nas últimas décadas, buscou-se incorporar a qualidade da educação nas medidas de capital humano, o que foi facilitado por testes internacionais para avaliar a qualidade do sistema de ensino dos países, dos quais o Pisa, da OCDE, é o principal e mais conhecido.

Agora, em recente artigo publicado pela revista científica Nature, um grupo de economistas (Noam Angrist, Simeon Djankov, Pinelopi K. Goldberg e Harry A. Patrinos) apresentou uma nova base de dados do capital humano dos países, cobrindo quase toda a população mundial. O Banco Mundial é a principal instituição envolvida com o trabalho.

A base de dados, batizada de “Harmonized Learning Outcomes (HLO, Resultados de Aprendizados Harmonizados)”, inclui 164 países, cobrindo 98% da população mundial entre 2000 e 2017.

Segundo os autores, a HLO é uma das maiores e mais atualizadas base de dado sobre aprendizado do mundo, e uma das primeiras a desagregar os resultados por gênero. A base de dados está aberta ao uso público e deve ser atualizada a cada dois ou três anos.

O Pisa nas suas últimas edições foi aplicado em cerca de 70 países, incluindo os membros da OCDE. Apesar de ser um avanço notável em termos de um teste comparável de nível de aprendizado cobrindo uma parte expressiva do mundo, boa parte da população global em países emergentes e pobres fica de fora.

A HLO, para cobrir praticamente o mundo todo, usa uma metodologia de harmonização na qual são empregados sete programas internacionais ou regionais de testagem de aprendizado (incluindo o Pisa). Cada um desses programas cobre de 10 a 72 países, e os resultados da HLO são combinados e harmonizados para que se chegue a um ranking unificado, detalhado e comparável.

Nem todos os países, é claro, tem resultados para todos aqueles testes, mas é justamente a metodologia de harmonização que permite se chegar uma escala comparável entre todas as nações.

Os autores destacam algumas tendências que aparecem na HLO, e boa parte delas não surpreende. Os países avançados têm mais capital humano que os emergentes, e a pior região do mundo é a África subsahariana.

A Índia tem nível educacional similar ao dos países piores da África subsahariana, mas esta região tem alguns destaques positivos, como Quênia e Tanzânia, com resultados similares ao de vários países da América Latina (que está acima da África, incluindo o Norte, mas bem abaixo de Europa, Estados Unidos e Leste da Ásia).

Entre os latino-americanos, os autores chamam a atenção para o Chile, com um nível de ensino similar ao de alguns países europeus.

O Brasil aparece com um exemplo negativo de país com escolaridade em termos quantitativos relativamente alta no panorama mundial (a expectativa de anos de estudo dos alunos está 11,7 anos), mas com resultado de nível médio de aprendizagem bem abaixo do que seria esperado. Gana é um exemplo ainda mais extremo, com 11,6 anos de expectativa de escolaridade, e um resultado em termos de aprendizado que é pouco mais da metade do brasileiro.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 22/11/2021, segunda-feira.