Ford, Banco do Brasil, Bolsonaro e Guedes

O que as reações de Bolsonaro aos eventos da Ford e do Banco do Brasil dizem sobre a relação entre o presidente e seu ministro da Economia, Paulo Guedes.

Fernando Dantas

14 de janeiro de 2021 | 19h27

Dois episódios recentes colocaram em foco a relação tumultuada e contraditória de Bolsonaro com a agenda econômica liberal de seu ministro da Economia, Paulo Guedes: o anúncio da saída da Ford do Brasil e a ameaça de demissão do presidente do Banco do Brasil, André Brandão, por causa do plano de fechamento de agências e demissões voluntárias.

É bem sabido que, durante décadas como parlamentar, Bolsonaro nunca teve nada de liberal, nem no plano político e de costumes, nem na seara econômica.

O presidente nunca foi um político preocupado com o debate econômico. Em sua carreira, notabilizou-se por defender a ditadura militar de forma genérica contra a “ameaça comunista” e a corretar vantagens para militares e policiais.

Vinculado à linha dura do regime militar associada ao “Brasil Grande” e à agenda econômica intervencionista e nacionalista, Bolsonaro foi, por exemplo, um feroz opositor da privatização da Vale.

Também é bem conhecida a história do seu encontro com Guedes na fase preparatória da campanha, e a aliança entre as bandeiras conservadoras do futuro presidente e a agenda econômica liberal do futuro ministro – ambas no espectro amplo da direita, mas não necessariamente alinhadas no dia a dia da política.

Bolsonaro sempre foi bem sincero quanto ao seu “Posto Ipiranga”. O presidente admitiu que economia não era bem sua praia, e que estava num processo de gradativa “conversão” por Guedes, o que significa que nem sempre os dois veriam um problema pelo mesmo prisma. O discurso de Guedes sobre a relação com o presidente foi e é semelhante.

Os episódios da Ford e do Banco do Brasil mostram que esse equilíbrio tênue permanece.

No primeiro caso, Bolsonaro declarou que a montadora norte-americana queria mais subsídios, mas que seu governo não concordava com isso. “Não, perdeu para a concorrência, lamento”.

As palavras presidenciais sobre a Ford não ficariam estranhas na boca de uma Margaret Thatcher, certamente um ícone ideológico para Guedes.

Já no Banco do Brasil deu-se o oposto. Mesmo se tratando de um programa de demissão voluntário e de um enxugamento de agências em linha com o resto do setor, Bolsonaro se comportou como o brasileiro mediano de índole estatista que vê o Banco do Brasil e seus funcionários como uma vaca sagrada que não pode ser atingida por nenhuma ação liberal, ou mesmo meramente racional, se significar enxugamento.

Como já aconteceu diversas vezes, Guedes atua nos bastidores para apagar o incêndio e tentar preservar o presidente de perfil técnico do BB contra o ímpeto estatista e corporativista do presidente da República.

Até o momento em que essa coluna foi entregue, não havia saído decisão sobre eventual demissão de Brandão.

Apesar de profundamente lamentável, o episódio do Banco do Brasil não significa uma reviravolta na política econômica, em direção a um populismo estatista e gastador. Na verdade, é mais do mesmo, o cabo de guerra constante, desde os primeiros dias do governo, entre os instintos iliberais do presidente também na economia e seu compromisso com a agenda de Guedes.

Se Brandão sair e isso for a gota d’água para a permanência de Guedes no governo, aí a coisa muda de figura. Até agora, entretanto, não há sinal de que o ministro da Economia reagiria dessa forma.

Por outro lado, não há dúvida de que a ambiciosa agenda econômica liberal de Guedes no início do governo caminha até agora para um retumbante fracasso.

Este é um resultado de múltiplas causas, sendo que as hesitações de Bolsonaro, ligadas ao seu passado estatista, são apenas uma delas.

O fato de que este é um péssimo governo em termos de articulação política é outro. Assim como a incompetência de Guedes como ator político e gestor público. E o mesmo pode ser dito do furacão da pandemia que colocou tudo de pernas para o ar e levou a uma temporada inédita de explosão do gasto público.

O mergulho de Bolsonaro no colo do centrão, adicionalmente, se nutre de fisiologismo e atrapalha a agenda liberal – no caso do BB, por exemplo, as eleições para a presidência da Câmara e do Senado podem ser um dos fatores que levam Bolsonaro a hostilizar decisões técnicas, e não políticas, da direção do banco estatal.

Por outro lado, a corda ainda não arrebentou. O populismo de direita de Bolsonaro ainda se mantém bem diferenciado do populismo de esquerda de outros governos em termos de política econômica.

O presidente não renovou o auxílio emergencial para 2021, numa dura decisão fiscalista, mesmo sabendo dos grandes riscos que isso implica para a sua popularidade. O teto não foi abandonado.

A resultante final podem ser dois anos de um governo que não entorna o caldo em termos econômicos, mas que deve ficar muitíssimo aquém dos sonhos iniciais do mercado. Se o cenário internacional ajudar, dá até para chegar a 2022 sem uma crise econômica aguda, mas é mais da mesma mediocridade que assola o Brasil há quatro décadas de baixo crescimento.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 14/1/2021, quinta-feira.