Fotografias do passado?

Indicador de serviços em junho veio muito ruim, o que aumenta a preocupação sobre PIB do segundo trimestre, que vários analistas projetam em torno de zero. Mas será que essa imagem dos indicadores até junho é enganadora, porque a partir de julho melhorou?

Fernando Dantas

12 de agosto de 2019 | 09h11

O recuo de 1% do volume de serviços em junho, na comparação dessazonalizada com maio, abaixo do piso das Projeções Broadcast, é mais um jato de água fria na torcida para que a retomada econômica saia do atoleiro em que aparentemente se encontra desde o ano passado.

Na comparação com junho de 2018, o recuo foi de 3,6%, também pior que o nível mais pessimista das projeções, de 3,3% de queda.

Com várias projeções do crescimento do PIB no segundo trimestre já oscilando em torno de zero, o resultado da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) de junho acirra o temor de que o resultado do PIB fique em território negativo.

Isto, por sua vez, caracterizaria uma “recessão” de acordo com uma definição um tanto quanto simplista do termo, a de dois trimestres consecutivos de recuo do PIB. No primeiro trimestre, o PIB recuou 0,2%, na comparação dessazonalizada com o quarto tri de 2018.

Flávio Serrano, economista-chefe do banco Haitong no Brasil, não aprecia essa definição de recessão, e não usaria o termo para descrever a economia brasileira nos últimos trimestres, tanto se o PIB no segundo tri ficar ligeiramente acima quanto ligeiramente abaixo de zero.

Na sua visão, “a economia parou desde o quarto trimestre do ano passado, e tem oscilado ao redor da estabilidade”.

Ele acrescenta que esse quadro é diferente de uma recessão, como foi o período de 2015 e 2016, com queda continuada e consistente do PIB.

Serrano nota que há bastante disparidade de desempenho entre diferentes setores da economia, o que também destoa da característica das recessões de serem movimentos mais generalizados.

Assim, por exemplo, o comércio (excluindo veículos) cresceu apenas 0,6% no primeiro semestre, mas as vendas de veículos saltaram cerca de 12,1% (em relação ao mesmo período de 2018).

Há, portanto, uma discrepância entre o setor de veículos e o restante do comércio. Uma possível explicação, segundo Serrano, é que a queda dos juros pode estar estimulando segmentos dependentes de crédito, como automóveis, enquanto o alto desemprego e o fraco desempenho da renda salarial mais recentemente inibem as compras da maioria dos itens do comércio, mais vinculados aos rendimentos.

Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP, aponta que o mau resultado dos serviços em junho e mesmo o PIB do segundo trimestre podem ser “fotografias do passado”, que, neste preciso momento, talvez sejam enganadoras.

Ele observa que a aprovação da reforma da Previdência em julho na primeira votação da Câmara, e recentemente reconfirmada em segunda votação, pode ser vista como uma das causas – e emblemática – de uma virada positiva, naturalmente ausente dos indicadores até junho.

O economista chama a atenção para o fato de que o Índice de Incerteza da Economia-Brasil (IIE-Br), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), recuou fortemente para 108,4 em julho, depois de ter registrado níveis ligeiramente acima de 119 em maio e junho.

Rocha diz identificar correlação relevante entre o IIE-BR e o crescimento 12 meses à frente: “Um nível de 120 correlaciona com zero e um nível de 108 com 2%”, acrescenta. Ele acha – e pondera que isso deve soar ousado – que a incerteza ainda pode cair um pouco mais e que a economia pode rodar a 2% ou 2,5% nos próximos 12 meses.

Num argumento que Serrano, do Haitong, também faz, Rocha vê o comportamento da economia brasileira sendo pautado em parte substancial pelo comportamento da curva dos juros como um todo.

De abril a setembro de 2018 os juros subiram fortemente, independentemente da política monetária, nas asas do estresse eleitoral. Tomando-se a defasagem de seis a nove meses entre esses movimentos e seus impactos mais sensíveis na economia, daria para entender por que o PIB estacionou até junho.

Da mesma forma, daria para entender por que a atividade pode estar começando a despertar agora. A curva de juros, nota Rocha, antecipou-se à política monetária, começando a refluir no último trimestre do ano passado, e caindo de forma mais intensa recentemente (o primeiro movimento de corte da Selic foi em 31 de julho).

Novamente, pensando-se numa defasagem de seis a nove meses, as peças mais ou menos se encaixam num cenário de reavivamento da economia a partir do atual momento.

Mas isso não significa céu de brigadeiro para o crescimento, como ressaltam ambos os analistas. Os percalços ainda são muitos: problemas de produtividade, baixo investimento e desaceleração global, menciona Serrano.

Rocha acrescenta à lista o freio fiscal e parafiscal e a trava da construção pesada (que afeta o investimento) pela Lava-Jato.

O sócio da JGP observa que o consumo das famílias terá que liderar o pelotão do crescimento num primeiro momento, já que não se pode esperar muito do investimento, do consumo do governo e da demanda externa.

Ainda assim, a expectativa é de retomada gradual e nada explosiva, cujas chances aumentam consideravelmente se a agenda de reformas for tocada com vigor pelo governo e o Congresso.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 9/8/19, sexta-feira.

Tendências: