“Frágil favoritismo” de Dilma, com volta parcial da popularidade

Fernando Dantas

12 de setembro de 2013 | 00h18

A popularidade de Dilma Rousseff parece ter se firmado num novo nível, com recuperação parcial em relação ao pior momento pós-manifestações de junho, a julgar pela pesquisa divulgada na terça-feira, dia 11/9, pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) em parceria com a MDA Pesquisa. A avaliação positiva subiu de 31,3% em julho para 38,1% em setembro, e a negativa caiu de 29,5% para 21,9% no mesmo período.

Esses números estão razoavelmente em linha com os resultados de outras pesquisas que igualmente captaram a opinião sobre a presidente e o seu governo já depois que a poeira assentou em relação às manifestações mais maciças e significativas de junho.

É bom frisar que, nem de longe, a presidente voltou aos níveis estelares de popularidade que ainda eram exibidos em meados do primeiro semestre deste ano. E que, como mostrou o analista José Roberto Toledo em artigo no Broadcast Político, a popularidade parou de crescer em relação a pesquisas anteriores que já registravam a recuperação.

Não há dúvida, entretanto, que o quadro melhorou para o governo e seus estrategistas em relação ao pior momento em junho.

Os cientistas e analistas políticos brasileiros, por sua vez, deparam-se com ainda mais desafios do que aqueles que já pareciam ser de muito bom tamanho em junho. Já não é suficiente tentar explicar a repentina, imprevista e fortíssima queda de popularidade de Dilma, que ainda está longe de ser inteiramente compreendida, mas é preciso também interpretar por que um pedaço do prestígio da presidente voltou apenas alguns meses mais tarde.

“É de fato um quebra-cabeça, quando a gente pensa que a presidente estava sendo odiada há apenas dois meses”, comenta Maurício Santoro, doutor em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Estado do Rio de Janeiro (Iuperj).

Na visão de Santoro, as manifestações desde junho, apesar de toda a sua heterogeneidade e diferenciação, tiveram como atores principais diferentes frações da classe média brasileira. A população mais pobre, embora tenha aparecido como coadjuvante em diversos momentos, não liderou o movimento.

Assim, apesar de ter sido tragada para o clima geral de insatisfação em junho, principal base eleitoral de Dilma, que está nos segmentos mais populares, pode ter voltado a nutrir, em relação à presidente, certo grau de confiança e de estima. O cientista político nota que esta camada da população é a mais beneficiada por políticas públicas do PT e de Dilma como a elevação real do salário mínimo e os programas sociais em geral.

Outro fator, para Santoro, foi a mudança da natureza das manifestações entre junho e o momento posterior. No mês inicial, elas tiveram uma dimensão muito maior, e foram extremamente heterogêneas. Os protestos posteriores já foram mais focados em questões locais, com o retorno inclusive das bandeiras partidárias em alguns casos e, além disso, a violência dos Black Blocs e grupos parecidos, que assustaram a população.

“A reação de muita gente deve ter sido do tipo ‘pera aí, eu não sou Black Bloc’”, analisa Santoro.

Para Carlos Pereira, cientista político da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape), da FGV-Rio, a recuperação parcial da popularidade de Dilma deriva de uma melhor sintonia com o espírito das ruas num segundo momento da reação do governo, e que ele considera especialmente ligado ao programa Mais Médicos.

Inicialmente, na avaliação de Pereira, Dilma jogou suas fichas no diagnóstico de insatisfação com o sistema político, lançando ao Congresso a solicitação de que tocasse enfim a reforma política. O problema, para o analista, é que “a demanda das ruas era pela melhora na oferta dos bens públicos, e não por mudança do sistema político”.

Pereira, aliás, acaba de lançar um livro em inglês, com planos de posterior tradução para o português, em que, resumidamente, defende a tese de que o sistema político brasileiro é bom e adequado para o País – “Making Brazil Work – Checking the President in a Multiparty System” (Fazendo o Brasil Funcionar – Dando Limites ao Presidente num Sistema Multipartidário). O trabalho foi objeto desta coluna na AE-News Broadcast em 27 de agosto, posteriormente postada no meu blog no portal do Estadão.

O cientista político da Ebape, portanto, crê que a demanda popular por melhoras concretas em serviços públicos como saúde, educação, segurança e transporte foi contemplada, ainda que apenas pontualmente, com o Mais Médicos, em que estrangeiros – e, especialmente, cubanos – vão preencher vagas em cidades do interior e na periferia de metrópoles para as quais não houve oferta de profissionais brasileiros.

Ele observa que o programa foi muito polêmico, e despertou reações que julga preconceituosas. Mas Pereira considera que “o governo ganhou o debate do Mais Médicos junto à opinião pública”. Esta afirmação parece ser corroborada pela pesquisa CNT/MDA: o porcentual das pessoas que se declararam favoráveis à contratação de médicos estrangeiros pelo programa saltou de 49,7% em julho para 73,9% agora.

O fator econômico

Tanto Santoro quanto Pereira acham que a economia também pode ter dado alguma trégua para Dilma no período posterior a junho. Eles destacam em particular a inflação, que parece estar sendo combatida com mais determinação.

Na verdade, a questão da inflação ainda paira num certo limbo de incerteza. É fato que graus adicionais de liberdade parecem ter sido conferidos ao BC para controlar os preços, embora nada assegure que a instituição tenha recuperado a autonomia operacional que prevaleceu até pelo menos uma boa parte do mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Mas é bom não esquecer que o governo colheu os índices sazonalmente baixos de inflação do meio do ano. Isto, combinado com a frequente ênfase da presidente na determinação de controlar a alta dos preços e a percepção de um BC mais ativo, pode ter criado a sensação de que o problema está sendo atacado com rigor – e, para a popularidade, a sensação é o que importa.

De maneira mais geral, a economia deu tímidos sinais positivos pós-junho que podem ter contribuído direta ou indiretamente para a recuperação parcial da popularidade da presidente. O PIB do segundo trimestre veio muito forte, acima das expectativas, o que foi faturado pelo governo com o maior alarde possível (embora as perspectivas para o segundo semestre e para o ano não sejam boas).

No emprego, indicadores ruins do trabalho formal seguem-se a números razoáveis do mercado de trabalho em geral, num quadro que não convalida até agora nem as hipóteses mais otimistas nem as mais pessimistas.

Por outro lado, um alívio para o governo Dilma deriva dos dois grandes fatores de risco externo, que se manifestaram com muita virulência em maio e junho: o processo de normalização monetária americana, que faz subir os juros da maior economia do mundo, atraindo capitais e provocando a desvalorização de moedas emergentes; e a desaceleração da China, que poderia afetar o preço das commodities exportadas pelo Brasil.

No cenário americano, o referencial mais importante, que é a rentabilidade do título do Tesouro de dez anos, continua em território ameaçador, sendo cotado      a 2,93% quando esta coluna foi escrita (no início de maio, chegou a uma mínima de 1,63%).

Mas o fato é que não só o real, mas também as moedas de outros emergentes e exportadores de commodities, têm reagido melhor à perspectiva de normalização monetária americana, talvez em parte pelos programas de intervenção que os BCs brasileiro e de outros países colocaram em prática.

Outra possível explicação é que, independente da rentabilidade dos Treasuries, uma sucessão de indicadores recentes mostrou que a recuperação americana não é tão firme assim, o que pode tornar mais gradual e/ou jogar para o futuro os dois processos temidos pelo mercado: a redução das compras diárias de títulos pelo Federal Reserve (Fed, BC americano) de US$ 85 bilhões e a subida da taxa básica de juros americana (Fed Funds) do seu nível atual de virtualmente zero.

Já no front chinês, as notícias de curto prazo são positivas de uma forma mais nítida. Há uma clara melhora no segundo semestre de indicadores de confiança, de comércio exterior e de atividade industrial. Hoje mesmo, foi divulgada a alta (ano contra ano) da produção industrial e das vendas do varejo na China em agosto, de, respectivamente, 10,4% e 13,2% – em ambos os casos, acelerando o ritmo em relação a julho.

Firma-se a convicção de que a China cresce 7,5% este ano, ou até ligeiramente mais, e reduziram-se os temores de “pouso forçado” (embora uma série de questões estruturais importantes permaneça indefinida).

O front externo, portanto, pode estar dando algum fôlego para Dilma lidar com a complexa situação, arriscada eleitoralmente, de baixo crescimento e inflação alta. O ponto crucial é controlar os preços sem deixar que uma piora ainda mais drástica da atividade tenha um efeito muito desastroso no mercado de trabalho, que provavelmente ainda é o esteio da popularidade presidencial. O fato de que a recuperação da popularidade pareça ter se estancado no atual nível indica que nem de longe a guerra política da economia esteja ganha.

Eleições de 2014

Santoro e Pereira coincidem também na avaliação do quadro eleitoral para 2014. A recuperação parcial do prestígio da presidente coloca-a em uma base mais segura, mas é muito improvável que se retorne aos tempos de esmagadora popularidade que indicava que as eleições do próximo ano seriam um passeio.

“Dilma ainda é favorita, mas numa situação bem menos confortável”, diz Pereira. Ele lembra que o próprio exemplo que deu de ação correta da presidente na busca de recuperar a popularidade, o Mais Médicos, foi apenas um programa numa área específica, dentro do mar de demandas de melhoria da qualidade do serviço público. Para o cientista político da Ebape, Dilma teria que multiplicar iniciativas do mesmo tipo e do mesmo impacto para reforçar o seu favoritismo, o que, naturalmente, não é nada fácil.

Santoro, por sua vez, acha que o favoritismo de deriva em parte da fragmentação da oposição e do fato de que não tenha saído das ruas um claro representante político para fazer oposição ao governo, ainda que Marina Silva tenha tido algum impulso eleitoral.

“É um favoritismo frágil, sem entusiasmo, uma coisa mais de quem tem a perspectiva de ganhar por WO”, diz Santoro.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (email: fernando.dantas@estadao.com)

Este artigo foi publicado em 11/9/13 na AE-News Broadcast

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