Fragmentação à esquerda

Para cientista político Carlos Pereira, da FGV/Ebape, situação da esquerda nesta eleição presidencial está pior do que a da centro-direita.

Fernando Dantas

09 Maio 2018 | 19h18

O cientista político Carlos Pereira, da FGV/Ebape, considera que a esquerda deve se fragmentar mais nas eleições presidenciais deste ano do que a centro-direita.

Para Pereira, tanto PT quanto PSDB são partidos que “têm no seu DNA a busca da via majoritária”, isto é, que desde 1994 disputam entre si a conquista da presidência da República. O PMDB, ao contrário, é um “partido do legislador mediano”, o que significa que historicamente tende a se contentar com o papel de principal coadjuvante na base aliada dos governos tucanos e petistas.

Segundo as pesquisas de Pereira, a busca do caminho majoritário é que apresenta maiores riscos, mas também os maiores retornos em termos de recursos políticos e financeiros caso o partido seja vitorioso na corrida presidencial. Já o segundo maior retorno é o do caminho do legislador mediano, e o pior fica com o partido que busca a via majoritária, mas perde.

Com o impeachment, o PMDB se viu subitamente alçado ao poder, o que levou o partido agora a considerar uma candidatura presidencial própria, o que, em tese, seria aderir à via majoritária. A alternativa seria retroceder ao seu papel histórico de partido do legislador mediano.

O problema é que não há sinais de que os potenciais candidatos do PMDB, o presidente Michel Temer e seu ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, decolem nas intenções de votos. Assim, o PMDB já dá sinais de que está considerando a alternativa de voltar para o seu “DNA” de partido do legislador mediano, embora ainda haja incerteza quanto a isto.

Com o PT e o PSDB a história é outra. Há um custo grande em abandonar a via majoritária, já que esses partidos desde o início do período pós redemocratização se adaptaram e se especializaram em exercer este papel.

No caso do PSDB, a candidatura de Geraldo Alckmin já está lançada, mas enfrenta níveis bastante decepcionantes de intenções de votos a esta altura do campeonato eleitoral.

Pereira, entretanto, é bem mais otimista em relação a Alckmin do que a maioria dos observadores. Em primeiro lugar, uma eventual coligação entre PSDB, PSD, PMDB e outros partidos poderia ter recursos dos fundos eleitoral e partidário de quase R$ 1 bilhão nesta campanha, além de grande tempo de TV. O PSDB terá muito dinheiro e tempo de TV mesmo sem o PMDB. Esses recursos serão distribuídos entre todas as candidaturas, incluindo a governadores e ao Congresso, mas é natural que a disputa para presidente fique com um grande quinhão.

Há a questão do papel que as redes sociais terão nesta campanha, o que poderia favorecer outsiders como Bolsonaro (que, apesar de deputado, se lança por um pequeno partido), que é muito forte nesse tipo de comunicação. Isso ainda é um ponto de interrogação, segundo Pereira.

Mas ele acha que o próximo presidente virá do centro, e terá que conciliar três demandas da sociedade e das elites do Brasil neste momento histórico: redução da desigualdade, responsabilidade fiscal e combate à corrupção.

Pereira considera que Alckmin pode encarnar o papel de defensor dessas bandeiras, sendo que o risco maior é que seja envolvido de forma mais pesada na Lava-Jato durante a campanha. Se isto não ocorrer, o cientista político da Ebape acha que o candidato tucano é competitivo e tem chances de ir ao segundo turno e ganhar.

Já a situação do PT é muito mais complicada, segundo Pereira. Para ele, a estratégia de Lula de se manter como candidato, mesmo preso, atende aos interesses judiciais do ex-presidente, mas não aos interesses eleitorais do seu partido.

Pereira também tem um trabalho que indica que a proporção de eleitores tradicionais de um determinado candidato que mantêm o voto nele mesmo diante de denúncias de corrupção cai consideravelmente quando efetivamente ocorre uma condenação judicial.

Assim, ele prevê que a força de Lula como apoiador de uma candidatura alternativa tende a se desgastar, sendo que isto já poderia se entrever numa ligeira piora nas intenções de voto no ex-presidente nas últimas pesquisas, ainda que ainda permaneça como líder inconteste.

O melhor momento para Lula unificar a esquerda em relação a um único nome teria sido o momento de sua prisão, pondera Pereira, mas agora o capital político lulista tende a se reduzir.

O problema maior, entretanto, é que o PT sempre exerceu o papel de liderança da esquerda brasileira como único partido efetivamente competitivo na disputa presidencial, e agora esta posição está sob grande ameaça. Essa situação faz com que, por um lado, as lideranças petistas se agarrem como nunca à candidatura própria e, por outro, com que outros partidos e candidatos, como Ciro, PSOL e PC do B, antevejam a chance de ter maior protagonismo político diante do vácuo criado pelos problemas do PT.

Assim, Pereira não acredita na aliança entre Ciro e o PT, por resistência deste último, e acha provável que “a esquerda se pulverize em candidaturas não competitivas nesta eleição”. O cientista político é cético quanto a Ciro, entre outros motivos pelo quinhão modesto que terá dos fundos eleitoral e partidário e do tempo de TV.

(Pereira fez apresentação no Ibre/FGV em 7/5, segunda-feira, antes de Joaquim Barbosa anunciar sua desistência de concorrer à presidência)

(fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 8/5/18, terça-feira.