Gargalos freiam indústria

Produção industrial de agosto decepcionou, e problemas logísticos e de insumos que afetam o setor no Brasil, assim como no mundo, podem perdurar por período longo e difícil de prever.

Fernando Dantas

08 de outubro de 2021 | 13h46

A produção industrial de agosto, divulgada hoje (5/10, 3ª feira), desapontou, com recuo de 0,7% ante julho, na série com ajuste sazonal. O resultado foi pior do que a mediana do Projeções Broadcast, de -0,4%.

Segundo a economista Luana Miranda, da Gap Asset, no Rio, o destaque na divulgação é o impacto forte dos setores que mais estão sofrendo com a dificuldade de obter insumos, como veículos automotores, indústria química, eletrônicos etc.

Os bens duráveis, com recuo de 3,4% ante julho, na série dessazonalizada, tiveram o pior desempenho na produção industrial de agosto, entre as chamadas “grandes categorias econômicas” (bens de capital, intermediários, de consumo durável e de consumo semidurável/não durável).

Os bens duráveis tiveram a oitava contração mensal consecutiva nessa base de comparação, acumulando -25,5%.

Na comparação com agosto de 2020, os duráveis recuaram 17,3%, com alguns destaques negativos sendo justamente automóveis (-27,8%) e eletrodomésticos da linha marrom (-29,1%), segmentos sabidamente afetados pelos gargalos logísticos e industriais no Brasil e no mundo, ligados à pandemia.

O problema dos gargalos, como nota Luana, “é que não temos muita perspectiva de quando vão desaparecer”.

Os nós de transporte e produção surgiram pela combinação do desvio global da demanda de serviços para bens – o que aumentou a demanda – simultaneamente a engasgos na oferta provocados pelo isolamento social.

A situação, por ser relacionada à pandemia, é de certa forma inédita, e, portanto, não é fácil fazer projeções sobre quanto tempo vai demorar para a normalização da economia.

Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central (BC), disse ontem, em  evento na Associação Comercial de São Paulo (ACSP), que a velocidade do ajuste entre consumo de serviços e de bens está muito lenta.

E é justamente esse ajuste, segundo o boxe “Evolução de Nuci, estoque e insumos na indústria de transformação”, do recentemente divulgado Relatório Trimestral de Inflação (RTI) de setembro, do BC, que “pode contribuir para o reequilíbrio entre oferta e demanda na indústria”.

O boxe do RTI mapeia a escassez de insumos e matérias primas e os estoques reduzidos em 2021 na indústria de transformação em geral, na qual o destaque preocupante são os bens de consumo duráveis. Em termos de ramos industriais, segmentos como produtos de metal, máquinas e equipamentos e veículos automotores exibem de forma muito evidente as marcas dos gargalos de produção.

Segundo o boxe, “o desajuste nas cadeias de insumos industriais tem se revelado mais persistente do que o esperado e impressões de setores afetados indicam que o processo de normalização pode se estender até 2022”.

Em termos globais, foi divulgado ontem (4/10) o JP Morgan Global Manufacturing PMI (sondagem industrial de âmbito global), compilado pela empresa IHS Markit, e que mostrou que os custos de produção industrial tiveram em setembro uma das maiores acelerações nos últimos dez anos.

Segundo a IHS Markit, a alta contínua do frete marítimo está exacerbando os gargalos industriais no mundo (mas o crescimento da demanda global por bens desacelerou-se em setembro, por outro lado).

Já na Alemanha, segundo reportagem publicada hoje (5/10) pelo New York Times, a falta de matérias primas tornou-se tão intensa que os economistas já começam a falar em “recessão de gargalo”.

Voltando ao caso brasileiro, Luana, da Gap, observa que a decepção com a produção industrial “está com cara de que é mesmo problema de oferta e não de demanda, quando a gente vê as filas para comprar carro, o preço de usados explodindo, os estoques muito baixos”.

Assim, a economista vê chances de que a desaceleração da indústria – que já era prevista por muitos analistas – possa ser mais intensa do que o esperado.

Somando a piora das condições financeiras, em termos de câmbio, juros, spreads etc., cria-se um cenário mais complicado para 2022. Luana faz projeções de crescimento do PIB de 5,2% este ano e de 1,7% no próximo, mas acrescenta que, após a produção industrial de agosto, tem “um leve viés de baixa”.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com.br)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 5/10/2021, terça-feira.