Covid-19

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Gestora estima 6,5 milhões de brasileiros já com Covid-19

Economistas da Kapitalo, gestora de recursos, vêm trabalhando com dados dos cartórios, e usam métodos estatísticos para atualizar o número de mortos em cada dia (e não mortes contabilizadas a cada dia) até data bem próxima. Com isso, e por meio de modelo epidemiológico simples, estimam quantos já foram infectados. Resultado é assustador.

Fernando Dantas

14 de maio de 2020 | 18h28

Um total de 6,5 milhões de brasileiros já estão infectados pela Covid-19, segundo estimativas da gestora Kapitalo, que está levando muito a sério a questão de saber como está a propagação da pandemia da Covid-19 no Brasil. A razão é óbvia: os enormes impactos que a doença tem na economia, e que serão tão mais ou menos fortes, tão mais ou menos prolongados, de acordo com o ritmo e a intensidade da disseminação.

Assim, há várias semanas Alfredo Binnie, economista-chefe da Kapitalo, e equipe têm acompanhado com lupa a divulgação dos números da doença no Brasil, especialmente a dos cartórios.

Usando métodos estatísticos, eles traçaram curvas de quantas pessoas morreram por dia (diferente de quantas mortes são apuradas a cada dia) do início da pandemia até o momento presente.

Com essas curvas, alimentaram um modelo epidemiológico simples para ir das mortes ao total de contaminados e chegaram a resultados que não são nada bons.

Os economistas estimam um número de “mortes contratadas” que é bastante assustador. É importante entender o que a expressão entre aspas quer dizer. É o número de pessoas que devem morrer por terem contraído a Covid-19 até o momento presente. Todas as pessoas que morrerão da doença por contraí-la a partir de hoje são excluídas. É claro que as mortes totais da pandemia no Brasil deverão ser muito maiores do que as “mortes contratadas” na estimativa da Kapitalo.

Pois bem, segundo a estimativa do período que vai até ontem, as “mortes contratadas” são de 42 mil a 48 mil, a um ritmo que chega até entre 800 e mil pessoas por dia e espalhado em dois meses.

Cerca de 6,5 milhões pessoas já teriam sido contaminadas pela Covid-19 no Brasil (o número oficial é inferior a 200 mil).

Não é demais reiterar que as “mortes contratadas” não são uma previsão das mortes totais do ciclo da Covid-19 no Brasil. Isso só seria verdade no cenário impossível de que ninguém mais contraísse o coronavírus a partir de hoje. É claro que a estimativa de “mortes contratadas” indica que o total será muito maior.

Mas como a Kapitalo chegou a esses números?

Antes é preciso fazer algumas ressalvas. A gestora explica que não se trata de previsão, e que não tem a pretensão de fazer as vezes de epidemiologista. Há várias hipóteses sobre variáveis envolvidas, que, embora bem fundamentadas, estão sujeitas a erro. Em particular, as estimativas sobre mortes nos dias mais recentes influenciam poderosamente as projeções, e qualquer mudança aí altera bastante os resultados.

Dito isso, a Kapitalo trabalha principalmente com os números de mortes por Covid-19 (ou suspeitas de ser, vamos chamar ambas de “mortes por Covid-19) a cada dia, divulgados pelos cartórios.

Em cerca de duas semanas após um determinado dia, os números mostram que quase todas as mortes por Covid-19 naquele dia específico já foram registradas pelos cartórios. Porém, no próprio dia, ou nos dois ou três dias subsequentes, só uma parcela muito pequena das mortes daquele dia específico é registrada. É normal: são os trâmites burocráticos que vão da morte até ela está formalmente registrada pelo cartório.

Assim, os números dos cartórios dão um retrato bastante bom da evolução das mortes da Covid-19 no Brasil até uns 15 dias atrás. Mas e a partir daí?

É nesse ponto que entra a estatística. É possível fazer as linhas de como as mortes num determinado dia vão crescendo nos dias subsequentes (no registro dos cartórios) até duas semanas depois, quando o número quase para de crescer – isto é, todas ou quase todas as mortes daquele dia, duas semanas atrás, já foram registradas.

É possível traçar essas linhas para todos os dias. E acompanhar como elas vão mudando à medida que se caminha para dias mais próximos do presente. Com isso, consegue-se estimar como as mortes de cada dia vão evoluir no registro dos cartórios nas duas semanas subsequentes. Por razões estatísticas, o método funciona bem para o período que vai até quatro ou cinco dias antes do momento presente. A partir daí, é menos confiável. O jargão da gestora para essa metodologia é “gross-up”.

O “gross-up” da curva das mortes a cada dia dos cartórios traz uma fotografia muito ruim. A mortes por dia eram inferiores a 10 no início de março, chegaram a um nível em torno de 500 no final de abril, e agora estão no patamar 700/800.

O mais preocupante, porém, é que, à medida que se avança no tempo, as curvas das mortes registradas (pelos cartórios) num determinado dia partem de nível mais alto, sobem mais rápido com a passagem do tempo, e atingem níveis cada vez mais elevados. Isso é um sinal de uma epidemia não controlada.

Na verdade, os economistas da gestora alertam que os números pioraram muito no período mais recente, de forma surpreendente até para eles. Em muito pouco tempo, a cara da pandemia no Brasil ficou bem mais feia.

Das mortes para os infectados

A partir da estimativa de mortes até o momento presente, estima-se o número de infectados até o presente. A importância de saber o número de infectados, dada uma determinada taxa de letalidade, é projetar o tal número de “mortes contratadas”, citado anteriormente.

É aqui que entra o modelo epidemiológico simples. Para isso, é preciso ter alguns parâmetros, como a taxa de letalidade e o famoso “R0”, cuja definição mais simples é quantas pessoas são infectadas em média por uma pessoa infectada (tipicamente, refere-se ao início da pandemia, daí o “zero”).

Com base em dados de outros países afetados e a estrutura etária do Brasil, o modelo da Kapitalo trabalhou com letalidade de 0,6%. Já o R0 caiu de 3,5 no início da pandemia no começo de março para 1,5 em meados de abril.

Na verdade, essas estimativas de R0, caso corretas, são muito ruins. O indicador tem que cair abaixo de 1 para que a pandemia comece a regredir, e este é o propósito da quarentena. No Brasil, porém, as estimativas da Kapitalo indicam que o isolamento social reduziu o R0, mas não para menos que 1, até meados de abril.

O motivo pelo qual a estimativa do R0 só vai até meados de abril é o elo entre estimar mortes e estimar contaminações. As mortes acontecem em média 21 dias após a infecção, então só sinalizam a epidemia até umas três semanas atrás. Soma-se a isso que a Kapitalo tira da estimativa epidemiológica o “gross-up” das mortes diárias, dos cartórios, nos quatro ou cinco dias mais recentes – pela razão já explicada de que o gross-up é menos confiável neste período.

Assim, recua-se 25 dias no tempo para ter uma estimativa do R0. A partir daí, tem que se supor. Nos resultados das “mortes contratadas” mencionados no início da coluna, a hipótese é de que, pós-meados de abril, o R0 ficou estável numa faixa de 1 a 1,2, que é conservador.

A Kapitalo vem fazendo as suas análises para o Brasil como um todo, São Paulo e Rio. Os dados da cidade do Rio são extremamente alarmantes, e a indicação é de que 25% da população carioca pode já ter sido contaminada.

A gestora recusa-se a fazer previsões sobre qual será o total de contaminados e de vítimas da pandemia no Brasil até o seu final, pois diz que isto depende das respostas da política pública, que são imprevisíveis.

Mas é possível fazer uma continha simples. Supondo que o R0 caia até 1, mas não abaixo disso, a pandemia vai avançar até se criar a chamada “imunidade de rebanho”, que acontece depois que a maioria da população já foi contaminada. Aí se está falando em muitas centenas de milhares de brasileiros mortos, talvez 1 milhão.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 14/5/2020, quinta-feira.

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