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Globalização em metamorfose

Comércio internacional de bens se retraiu em termos relativos, mas o de serviços está explodindo, segundo relatório da Mckinsey.

Fernando Dantas

21 de janeiro de 2020 | 20h47

A guerra comercial entre Estados Unidos e China, vindo na esteira da desaceleração do comércio global depois da crise financeira de 2007-2009, leva diversos a analistas a concluir que a globalização está em retração. As tensões geopolíticas, o unilateralismo de Trump e a ascensão do populismo e do protecionismo em diversos países seriam forças contrária à abertura crescente de fronteiras e mercados.

Nesse contexto, é interessante revisitar um relatório do Mckinsey Global Institute – “Globalization in Transition: The Future of Trade and Value Chains” . O estudo mostra que, na verdade, a globalização econômica, mais do que se retraindo, está se transformando.

O trabalho, do início de 2019, analisou 23 cadeias globais de valor em bens e serviços, em 43 países, de 1995 a 2017, responsáveis por 96% do comércio global, 69% do PIB mundial e 68% dos postos de trabalho do mundo.

É verdade que o volume do comércio mundial, como proporção do PIB global, caiu de 28,1% em 2007 para 22,5% em 2017. Mas o estudo mostra que isso reflete mais o fato de que a China, principalmente, e outros países emergentes estão deixando para trás os tempos de plataforma exportadora, e estão consumindo mais do que produzem.

Adicionalmente, países emergentes – novamente, a China em especial – estão montando cadeias de valor domésticas mais amplas, reduzindo a sua dependência de insumos importados.

Segundo a Mckinsey, as empresas chinesas, por exemplo, estão desenvolvendo os chips sofisticados, que costumavam importar, utilizados nas suas fábricas de computadores e produtos eletrônicos.

“Construir setores mais verticalmente integrados domesticamente permite à China capturar mais valor adicionado – e simultaneamente leva mais empregos e desenvolvimento econômico para suas províncias mais pobres e mais no interior”, relata o estudo.

O trabalho cita economias asiáticas como Índia, Indonésia, Tailândia, Malásia e Filipinas como exemplos nos quais a demanda doméstica acaba reduzindo a fatia exportada mesmo dos produtos em que estes países se especializaram. A Índia exportava 35% da sua produção de vestuários em 2002, e apenas 17% em 2017.

Segundo o estudo, algumas cadeias de valor cujas etapas estavam disseminadas em vários países, como têxteis e vestuário, estão se consolidando em nações individuais como Vietnã, Malásia, Índia e Indonésia.

Na verdade, segundo a Mckinsey, as cadeias de valor têm se regionalizado, principalmente na Ásia e na União Europeia (UE). Esse movimento é especialmente acentuado nas cadeias de valor globais  “de inovação” (que incluem veículos, computadores, eletrônicos e maquinaria, os bens mais intensivos em conhecimento). Uma das razões é a vantagem de ficar próximo dos fornecedores e ter com eles um relacionamento mais interativo e integrado.

Mas o relatório da Mckinsey alerta que essa tendência à regionalização pode atingir as demais cadeias de valor, à medida que a automação reduz a importância do custo da mão de obra e aumenta a relevância de se colocar produtos no mercado.

Aliás, segundo o estudo, a globalização ocorrida em função da busca de salários mais baixos em indústrias intensivas em trabalho está, de fato, em retração. Hoje, essas cadeias são responsáveis por apenas 3% do PIB mundial e empregam 3% dos trabalhadores no mundo, ou cerca de 100 milhões. E apenas 18% do comércio global hoje é baseado na “arbitragem de trabalho barato” – definida pela pesquisa como as exportações de países cuja renda per capita seja um quinto ou menos do que a do país importador.

Serviços

Se a “intensidade do comércio” – a razão entre exportações mundiais e produção mundial – caiu em quase todas as cadeias de valor de bens, o comércio internacional de serviços disparou, crescendo a um ritmo mais de 60% superior ao dos bens. No caso de subsetores como serviços de telecomunicações e informática, serviços empresariais e pagamentos de propriedade intelectual, o ritmo é duas a três vezes maior do que o de bens.

Segundo o trabalho, o comércio internacional de serviços atingiu US$ 5 trilhões em 2017, bem menos do que o de bens, que ficou em US$ 17,3 trilhões.

Mas os autores consideram que os números dos serviços estão subestimados, por três fatores: cerca de um terço do valor dos bens negociados internacionalmente é, na verdade, serviços, como marketing, pesquisa e desenvolvimento, financiamento e recursos humanos; as multinacionais enviam para as suas subsidiárias ativos intangíveis como software, marcas, design, sistemas operacionais e outros tipos de propriedade intelectual, mas que não são cobrados e são difíceis de rastrear; e as estatísticas comerciais também não captam o explosivo crescimento de serviços digitais gratuitos, como e-mail, mapeamento em tempo real, vídeo conferências e mídias sociais.

Alguns exemplos são a Wikipedia, com 40 milhões de artigos gratuitos em 300 línguas, ou o YouTube, pelo qual usuários do mundo inteiro todo dia assistem a mais de um bilhão de horas de vídeo gratuito.

O trabalho estima que o valor total desses serviços pouco visíveis, gratuitos ou contabilizados como bens é de cerca de US$ 8,3 trilhões por ano. US$ 4 trilhões são fluxos comerciais adicionais, não contabilizados, e US$ 4,3 trilhões são fluxos de bens que deveriam ser contabilizados como serviços. Fazendo esses ajustes, em 2017 o volume de comércio internacional de serviços já seria um pouco maior que o de bens.

Algumas conclusões da pesquisa da Mckinsey deveriam preocupar os brasileiros. Não só as cadeias de alta tecnologia e inovação, mas todas elas estão se tornando mais sofisticadas, e mais dependentes de mão de obra altamente qualificada do que de mão de obra barata. A regionalização das cadeias significa que países próximos de grandes mercados de consumo, como o México dos Estados Unidos, tendem a se beneficiar. E também terão vantagens países que se especializem na exportação de serviços (como a Índia em software e tecnologia da informação).

O Brasil não se encaixa exatamente em nenhuma dessas vantagens. As mudanças da globalização, portanto, aumentam a dificuldade do desafio de retomar o desenvolvimento.

Acesse o relatório da Mckinsey:

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 20/1/20, segunda-feira.

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