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Goldfajn defende manutenção da ração diária

Fernando Dantas

20 de setembro de 2013 | 22h18

O economista-chefe do Itaú-Unibanco, Ilan Goldfajn, acha que o Banco Central (BC) deve manter o programa de “ração diária” de intervenção no mercado cambial e os planos em termos do ciclo de alta da Selic (taxa básica de juros).

(abaixo deste post, entrevista com Barry Eichengreen, de Berkeley, sobre decisão do Fed de não iniciar o “tapering”)

“Eu consideraria que a atual melhora (por causa da decisão do Fed de não começar a reduzir a compra de títulos agora em setembro) é temporária, e continuaria a trabalhar com a previsão de um cenário mais difícil à frente – enquanto isso, eu faria com que a inflação ficasse menor”, disse Goldfajn.

Para Goldfajn, ao não iniciar o chamado “tapering” (jargão do mercado para o processo de redução das compras mensais de títulos) em setembro, “o Fed deu os primeiros sinais de que talvez queira ficar atrás da curva”.

Goldfajn acha provável que o Fed inicie o “tapering” em dezembro, quando ficaria mais claro que o mercado de trabalho americano está de fato se recuperando, e o conflito político envolvendo o limite de endividamento público dos EUA (que poderia levar à paralisação do governo) já teria uma solução encaminhada.

Caso o “tapering” não comece este ano, o economista acha que de fato o Fed vai ficar atrás da curva, e se arrisca a formar uma bolha no mercado de ativos, como imóveis e bolsas.

“Acho que até agora os estímulos não formaram bolha, porque uma coisa é você fazê-los com recessão e mercados de trabalho e imobiliário ruins; e outra coisa é não reduzir o estímulo quando a economia já está andando, o emprego melhorando e o preço das casas subindo – aí você pode estar induzindo uma valorização artificial dos ativos, começando uma nova bolha”, disse Goldfajn.

Nesse caso, ele acha que o Fed teria duas alternativas mais à frente. Ou agir mais abruptamente para combater uma eventual bolha, com a redução brusca do estímulo e a normalização mais rápida dos Fed Funds (taxa básica, que hoje é de virtualmente zero), o que provocaria muita volatilidade nos mercados globais; ou deixar que a bolha cresça. Mas, mesmo nesta segunda hipótese, em algum momento haveria uma correção, com risco cada vez maior de volatilidade.

Do ponto de vista do Brasil, portanto, o economista do Itaú-Unibanco acha mais sensato que o BC e a equipe econômica mantenham a estratégia atual, já que a alta volatilidade que a justificou pode voltar mais na frente.

“Se isso não acontecer, a gente vai perceber ao longo do tempo, e então poderíamos mudar a estratégia mais à frente”, ele acrescenta.

Para Goldfajn, os dados do mercado de trabalho americano, que tem dado sinais erráticos (embora numa perspectiva mais longa tenham mostrado uma melhora gradativa), devem ter sido um dos fatores relevantes que fizeram o Fed adiar o “tapering”.

Mas o economista-chefe do Itaú-Unibanco pensa que, de fato, a economia americana está em recuperação, e que isso ficará mais claro até o final do ano:

“Durante cinco anos eu fiquei na dúvida, mas agora acho que vai mesmo”.

Em relação ao imbróglio político do teto de endividamento, a sua visão é de que os Republicanos vão barganhar ao máximo, mas no final, como anteriormente, não levarão o impasse até o fechamento das atividades do governo.

Para Goldfajn, a novela da nomeação do novo chairman do Fed, em substituição a Ben Bernanke, que tudo indica que sairá ao final do seu mandato em janeiro de 2014, também pode ter tido influência no adiamento do “tapering”.

Recentemente, um dos candidatos à vaga, o economista Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro dos EUA, desistiu de concorrer. Assim, recai agora um grande favoritismo em Janet Yellen, atual vice chair do Fed. Em dezembro, pensa Goldfajn, é provável que o nome de Yellen já esteja sacramentado, e a decisão de começar o “tapering” poderá claramente ser atribuída à sua vontade, o que facilitaria o início do seu eventual mandato à frente do BC americano.

O economista-chefe, que já foi diretor e presidente interino do BC, nota que “é muito mais fácil montar uma política de estímulo do que desmontar, porque, uma vez que se monta, o mercado se acostuma – tudo que é bom, é difícil de tirar”.

Fernando Dantas (email: fernando.dantas@estadao.com)

Esta entrevista foi publicada originalmente na AE-News/Broadcast, em 19/9/13, quinta-feira

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