Goldfajn e os “solavancos” a superar

Ilan Goldfajn, economista chefe do Itaú-Unibanco, analisa fatores da alta forte do dólar, e diz que, conseguindo superar solavancos, economia global e Brasil podem melhorar.

Fernando Dantas

03 de outubro de 2014 | 20h06

A recuperação da economia global está acontecendo de forma bastante assimétrica, o que faz uma grande diferença em termos dos impactos que a retomada terá nos países emergentes. A análise é de Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú-Unibanco.

Ele nota que, entre as maiores economias desenvolvidas do mundo, apenas os Estados Unidos estão numa rota convincente de normalização pós-crise global (o Reino Unido também está, mas seu impacto mundial é menor). A zona do euro, ainda muito fragilizada, vai fazer mais uma rodada de estímulo monetário quantitativo e o Japão também luta para sair de um período de estagnação muito mais longo, que antecede em quase duas décadas a quebra do Lehman em 2008.

Assim, a retomada global, ainda que com o vigor comprometido por ser incompleta, está colocando uma pressão altista no dólar particularmente forte, já que a moeda americana tende a se valorizar em relação às outras divisas dominantes.

A alta do dólar, por sua vez, é um dos fatores que contribuem para o enfraquecimento das commodities. Como são cotadas internacionalmente na moeda americana, as principais matérias-primas tendem a sofrer uma influência em direção inversa à dos movimentos do dólar. Dessa forma, países emergentes como o Brasil, que são produtores de commodities, sofrem pressões especialmente fortes de desvalorização de suas moedas, que estão ligadas ao padrão assimétrico de recuperação do mundo desenvolvido. Um fator adicional que pode contribuir na direção de desinflar os preços das commodities e desvalorizar algumas das moedas emergentes é a desaceleração da economia chinesa, acrescenta o economista.

Goldfajn observa que a desvalorização cambial é útil a países emergentes que querem recuperar sua competitividade externa, caso brasileiro. O problema, porém, é que as economias que se encontram neste grupo mas estão com inflação elevada, também como o Brasil, terão mais dificuldade em administrar uma desvalorização que, em termos fundamentais, pode até ser necessária.

Em 2015, um fator adicional, mas obviamente ligado à recuperação da economia americana, deve entrar no cenário: o início de elevação das taxas básicas de juro dos Estados Unidos pelo Federal Reserve (Fed, BC americano). Estas taxas, conhecidas como Fed Funds, estão hoje num nível de praticamente zero.

“Eu acho que de 2015 não passa, e é o tipo da coisa que sempre traz algum solavanco – a questão é saber se o solavanco vai ser grande ou pequeno, curto ou demorado”, diz Goldfajn.

Dessa forma, o cenário está montado para um ano desafiante para emergentes exportadores de commodities com inflação relativamente elevada, e obviamente o Brasil encaixa-se nessa categoria.

Ainda assim, Goldfajn considera que, tanto no caso da economia global como um todo quanto no do Brasil especificamente, os solavancos à frente podem ser uma fase de transição para uma situação fundamentalmente melhor. Ele nota que a forma pela qual a retomada assimétrica no mundo rico, empoçada nos Estados Unidos, pode se disseminar é justamente pela desvalorização das outras moedas dominantes, o que poderia estimular as economias da zona do euro e do Japão (evidentemente sempre existe a possibilidade simétrica de a valorização do dólar estancar a retomada nos Estados Unidos, mas é justamente para prevenir este e outros riscos que o Fed vem trabalhando).

Já o Brasil, se administrar sabiamente o período de transição à frente, pode transitar para uma situação em que a competitividade internacional da economia seja em algum grau restaurada.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News Broadcast em 3/10/14, sexta-feira.

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