Goldfajn em Davos: “Levy vai entregar”

Fernando Dantas

21 de janeiro de 2015 | 23h16

Davos  – Recém-chegado a Davos, onde vai participar do Fórum Econômico Mundial, o economista-chefe do Itaú-Unibanco, Ilan Goldfajn, disse à agência Estado que “acredito que o Joaquim Levy” vai entregar, referindo-se à meta de superávit primário de 1,2% do PIB em 2015 e 2% em 2016. Ele acha que as medidas de aumento de tributo anunciadas ontem reafirmam a disposição da nova equipe econômica de resgatar a credibilidade da política fiscal. Em termos dos grandes temas do Fórum, Goldfajn cita o combate à pobreza e a desigualdade e a “era do dólar forte” como pontos de destaque. O presidente do Itaú,  Roberto Setúbal, também participa do Fórum Econômico Mundial. A seguir a entrevista:

Como o sr. viu as medidas tributárias anunciadas ontem?

Os anúncios feitos pelo lado da despesa até agora, como as mudanças no seguro-desemprego, abono salarial e pensão por morte, devem significar algo com 0,3% do PIB. Essas medidas pelo lado da receita de ontem devem chegar a 0,4%. Então já temos algo como 0,7% a 0,8%. Pelas contas do Itaú, o esforço terá de ser de 1,4 ponto porcentual do PIB este ano. Achamos que os números de dezembro vão colocar o resultado primário de 2014 em déficit de 0,2% do PIB. Mas o que falta pode ser alcançado por alguma receita extraordinária que ainda não sabemos qual é e também – infelizmente, mas é inevitável agora – algum corte de investimento. A nova equipe quer de fato recompor a credibilidade fiscal. Acredito que o Joaquim Levy vai entregar o que prometeu.

Os resultados disso serão positivos para a economia em 2015?

Este ainda será um ano difícil. A inflação deve ficar acima do teto de 6,5% por causa dos preços administrados. A nossa previsão de crescimento é de apenas 0,2%, praticamente o mesmo nível que em 2014.

Por que tão pouco?

O investimento deve ter caído algo entre 7% e 8% em 2014. Com a retomada da confiança, esperávamos uma normalização, mas os problemas da Petrobrás devem adiar esse processo. Assim, a recuperação da confiança deve ficar mais para o fim de 2015, e seu impacto será em 2016.

Então cresceremos mais a partir de 2016?

Nossa expectativa é da algo em torno de 1,5%, e de 2% em 2017. Para crescer mais do que isso é preciso uma agenda mais profunda de reformas estruturais para facilitar a vida de quem produz. Uma reforma tributária que simplifique é importante, reforma da Previdência, etc. É preciso também racionalizar o licenciamento de investimentos, como na questão do meio ambiente.

O sr. acha que a nova equipe econômica também vai abordar esses pontos?

O ajuste fiscal e a recuperação da credibilidade estão absorvendo no momento toda a energia deles. Eu diria que esses passos são até uma pré-condição para uma agenda mais estrutural de reformas. Para fazer tudo ao mesmo tempo, precisaria de uma mudança mais radical, de mais capital político – não é o ambiente que temos hoje.

Quais serão os grandes temas do Fórum, na sua avaliação?

Um dos temas desde o lançamento de “O Capital no Século XXI” do Thomas Piketty é a distribuição de renda e a riqueza. Há inclusive uma discussão, que vai aparecer aqui, específica sobre a América Latina: como manter os ganhos sociais e a substancial queda da pobreza num contexto de menor crescimento global desde a crise, que fez a China desacelerar e afetou as commodities exportadas por muitos países da região?

Qual a sua resposta para essa questão?

Temos que entender que o contexto mundial mudou, não há mais vento favorável. Hoje em dia qualquer ganho de renda, qualquer avanço social será obtido através de aumento da produtividade, pelo lado da oferta. Produzir mais com os mesmos recursos, e não contar com a melhora dos termos de troca. Voltamos à questão do Brasil, que se aplica a outros países latino-americanos. É preciso trabalhar duro, investir mais, particularmente em infraestrutura, e melhorar a produtividade com reformas estruturais. E ter em mente que no longo tempo é o investimento em educação que faz a diferença.

E a discussão sobre a economia global?

Estamos prevendo em 2015 um crescimento um pouquinho melhor puxado pelos Estados Unidos. Não esperamos grande recuperação na Europa e no Japão, e prevemos desaceleração na China. A zona do euro vai adotar a expansão quantitativa –  demorou seis anos para fazerem de forma mais intensa o que os Estados Unidos começaram logo depois da crise. A ideia é o Banco Central Europeu (BCE) comprar títulos soberanos dos países da zona do euro para expandir a liquidez.

Vai funcionar?

Evitará que a Europa entre num processo de deflação. Mas acho que o canal mais potente é através do câmbio, da depreciação do euro, que tem ocorrido nos últimos tempos e deve continuar em 2015. Estamos no mundo do dólar forte, que deve ganhar em relação ao euro, ao iene e às moedas emergentes, incluindo o real. Um mundo com a economia americana forte e as outras fracas não tem como não ser um mundo do dólar forte.

Por falar nisso, é também um mundo do franco suíço forte, com a incrível valorização desde a quinta-feira passada…

A Suíça liberou o piso do franco suíço porque estava acumulando reservas de forma insustentável. E é um sinal de como o mundo anda em busca de portos seguros para o dinheiro. Com juros negativos, é preciso pagar para manter o dinheiro em francos suíços. A não ser que a pessoal prefira guardar notas de mil francos…

Qual a expectativa do Fórum Mundial em relação a Joaquim Levy?

Empresários e investidores querem escutar dele razões para continuar a investir no Brasil. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast 

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