Governo é para craques

Um dos erros mais primários de um governo, cometido pelo PT a partir de certo ponto da era Lula, é não usar todo o pool de talentos técnicos do País para recrutar colaboradores em cargos chave. Temer já deu algum bons sinais nesta área, mas é preciso ir muito além e governar com os melhores quadros do Brasil.

Fernando Dantas

11 de maio de 2016 | 20h31

São bons sinais que o virtual próximo presidente, Michel Temer, tenha convocado Henrique Meirelles para a Fazenda, que o novo presidente do BC venha a ser Ilan Goldfajn e que o especialista Ricardo Paes de Barros esteja envolvido no pretendido rearranjo das políticas sociais. São três nomes que, indiscutivelmente, brilham no pool de talentos do País nas suas respectivas áreas.

O Brasil, como país de elevada população, tem grandes elites técnicas e de conhecimento. São poucos, comparados com o total de habitantes, mas são muitos quando se pensa nos cargos chave de um governo.

O erro mais primário que um governante pode cometer, portanto, é o de não utilizar o enorme pool de talentos à disposição no próprio País. Evidentemente, este não é um processo trivial, e governar um país não é um exercício meramente técnico, que prescinda da política. Governos têm – ou deveriam ter – ideologias e programas. Assim, é natural que cargos chave da gestão pública sejam entregues a pessoas, sejam políticos ou técnicos, que se identifiquem com a orientação básica do governante.

Num país com a organização política do Brasil, também parece difícil governar sem que cargos menos cruciais sejam preenchidos por critérios da pequena política, na busca de votos no Congresso.

De qualquer forma, qualquer presidente com pretensão de sucesso deve escolher um conjunto de funções vitais em que colocará colaboradores de alta competência.

A experiência recente, não só do Brasil, mas de muitos países, indica que, para além da polaridade política saudável e necessária à democracia, há amplas áreas de consenso técnico na gestão pública, em cargos em que costuma importar muito pouco a preferência partidária dos ocupantes.

Nesse ponto, o PT parece não ter aprendido nada com a sua própria experiência exitosa no início do governo Lula. O ex-ministro da Fazenda, Antonio Palocci, chamou como principais colaboradores econômicos Meirelles (no BC), Joaquim Levy (no Tesouro) e Marcos Lisboa (secretária de Política Econômica da Fazenda).

Eram três quadros técnicos que, por ideologia e formação, se identificavam muito mais com o PSDB do que com o PT. Meirelles, aliás, acabara de se eleger deputado federal tucano por Goiás, com a maior votação.

Não é preciso recontar pela enésima vez como, de 2003 a 2005, apesar das trepidações do mensalão, a economia brasileira foi posta novamente de pé, com continuidade e aprofundamento da agenda moderadamente ortodoxa e liberal do governo anterior.

Com a entrada de Guido Mantega na Fazenda em 2006, porém, o governo petista iniciou um lento processo de clausura em si mesmo, ao menos na área econômica. A equipe econômica “involuiu”, no sentido de recrutar pessoas do partido, próximas a ele ou que pelo menos não fossem percebidas como tucanas, seja em afiliação, preferência partidária ou orientação ideológica.

No BC, seara de Meirelles, a abertura anterior resistiu por mais algum tempo. Posteriormente, porém, com Alexandre Tombini na presidência, reinou por alguns anos uma diretriz jamais explicitada de que novos diretores não deveriam vir do mercado financeiro, e de preferência deveriam ser funcionários públicos de carreira – sejam do próprio BC, como Tombini, ou de outras áreas.

É verdade que a entrada do atual diretor de assuntos internacionais, Tony Volpon, rompeu a regra, mas a pergunta que fica é: por que uma área técnica como o BC rejeitou a priori, por um longo período, uma vasta quantidade de excelentes macroeconomistas que, como em qualquer país capitalista do mundo, costumam trabalhar no mercado financeiro?

Também é pertinente perguntar: por que uma área crucial da gestão econômica de qualquer país, o Tesouro, foi entregue por sete anos a Arno Augustin, um economista considerado como defensor de ideias gravemente equivocadas pela grande maioria dos seus colegas – inclusive alguns daqueles que se situam no seu próprio campo ideológico?

E por que Guido Mantega, ligado ao PT, foi mantido por nove anos no Ministério da Fazenda quando, a partir de determinado momento da segunda metade do seu período, ficara claro que sua gestão havia fracassado fragorosamente?

Apenas após o monumental estelionato eleitoral de 2014, Dilma Rousseff tentou reeditar o acerto do início do governo Lula, chamando Levy para a Fazenda. Este, por sua vez, recrutou alguns bons quadros como auxiliares, mas o pequeno grupo permaneceu ilhado num mar de hostilidade petista e assumiu num momento em que já era quase impossível reverter o desastre. Mesmo Nelson Barbosa, o atual ministro, com propostas mais razoáveis do que as do período 2011/2014 (do qual participou em parte), nada pôde fazer.

É importante que Temer não se esqueça de que o governo tem muito mais cargos e funções a preencher com gente de primeira linha do que os mencionados na abertura deste artigo. Ainda há muita inteligência a recrutar no País, e o futuro presidente não deveria desperdiçá-la. (fernando.dantas@estadao.com.br)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 11/5/16, quarta-feira.