“Governo não acredita nas reformas”

Armando Castelar, do Ibre/FGV-Rio, comenta em entrevista a alegria do mercado com o aumento das chances de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Fernando Dantas

07 de março de 2016 | 13h27

Armando Castelar, economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), diz em entrevista à Agência Estado que a presidente Dilma Rousseff não acredita nas reformas e que o mercado aposta num cenário positivo possível, mas não garantido, em que um novo governo com legitimidade consiga fazer as mudanças necessárias para o País sair da crise:

 

Como o sr. vê a reação positiva do mercado ao agravamento da crise política?

O mercado está claramente antecipando uma mudança na direção de uma política econômica mais consistente, mais abrangente, que encare de fato a questão fiscal, dando previsibilidade maior à economia. Isso é o que os preços dos ativos estão refletindo. Também tem o reflexo da ideia de menos intervenção na economia. Você vê que as empresas estatais são as que têm as ações com os maiores aumentos. É a visão de que o governo Dilma vem usando as estatais de uma maneira que usurpa as funções precípuas delas e coloca outros objetivos – o que aconteceu com a Petrobrás, por exemplo, em relação ao controle de preço da gasolina no passado. O mercado está precificando uma melhora de administração da política econômica, mais confiança dos investidores e dos financiadores. É um cenário possível. A troca de governo de fato abre essa possibilidade.

Por que o mercado é tão negativo em relação ao governo Dilma?

Está mais ou menos claro hoje em dia que as chances de uma mudança de política econômica com a presidente Dilma no governo são muito pequenas. A gente vê falta de identificação com propostas que efetivamente possam fazer diferença na questão fiscal, como na Previdência. O Congresso tem até aprovado muita coisa que o governo tem mandado, mas propostas mais ousadas terão que ser costuradas com mais atores e é claro que a presidente está muito isolada. Então, a saída da presidente, por renúncia, por impeachment, seja o que for, abre essa possibilidade de uma mudança de política econômica e de o País sair dessa crise na qual está se afundando. Agora, tudo depende muito da forma como se dá a transição, quem é que vem depois, que tipo de governo assume, qual o apoio político. A ideia de que seja um processo legítimo é importante. Se a presidente renunciar seria uma transição mais fácil do que se efetivamente se fizesse o impeachment.

Não é difícil fazer reformas que controlem gastos obrigatórios, seja com que governo for?

A experiência mostra que, no passado, governos que são percebidos como legítimos fizeram essas mudanças. Houve a reforma da Previdência no início do governo Lula, outra na época do Fernando Henrique. O Fernando Henrique fez reformas na Constituição bastante dramáticas, quebrando monopólios de estatais. Não é preciso que a opinião pública peça a reforma para que ela aconteça. Pode acontecer perfeitamente com um governo que seja considerado legítimo e que pegue o espectro político-partidário de maneira bastante ampla – o passado mostra isso. Mas precisa todo mundo estar dentro, ou a grande maioria. O que atrapalha é quando você tem no governo um grupo tentando fazer e outro na posição contrária. Aí obviamente fica mais complicado.

O governo Dilma anunciou que vai fazer reformas, inclusive da Previdência. Por que o mercado não acredita?

Porque o governo, a começar pela presidente, não acredita. Quando o governo diz “eu não posso cortar o que é obrigatório e o que é prioritário”, ele já diz que o ajuste é secundário. Prioritário é o gasto nisso, o gasto naquilo. Em segundo, tem um problema de capacidade, o governo está muito esvaziado, até para colocar quadros em todos os lugares. Muita gente saiu. Enfim, preparar essas medidas também não é uma coisa tão fácil. O terceiro problema é que muitas das medidas que hoje são necessárias e que dizem respeito a fazer um ajuste fiscal seriam exatamente um cavalo de pau enorme em relação a tudo o que foi feito nos últimos anos, com a nova matriz econômica: ser pouco tolerante com a inflação, efetivamente segurar o gasto público, etc.

Mas o governo não pode mudar, como aliás foi tentado com Joaquim Levy na Fazenda?

O problema é que é uma guinada vai contra aquela base de apoio mais próxima que restou ao governo atual. Fazer uma reforma da Previdência significa brigar com as centrais sindicais que, para o governo atual, têm um peso muito grande porque houve uma perda enorme do apoio da classe média mais ampla. Há um conflito entre o que faz sentido do ponto de vista da política econômica e o que faz sentido do ponto de vista político-eleitoral para este governo. Se mudar o governo, isto vai mudar também, e, portanto, haverá mais flexibilidade. Pelo menos vai passar a ter um grupo de apoio mais da classe média urbana, do empresariado, dos profissionais liberais e assim por diante. O governo nos últimos sete a oito anos também perdeu a credibilidade, porque não se esforçou para cumprir compromisso assumidos. E temos fatos recentes. A presidente diz que em 60 dias vai entregar um projeto de reforma da Previdência. Duas semanas depois o ministro da Previdência diz que em 60 dias não dá. O ministro da Fazenda diz que vai colocar a idade mínima. Uma semana depois o ministro da Previdência dá uma entrevista dizendo que está tudo em aberto e que a idade mínima é uma visão do ministro da Fazenda, não é uma visão do governo.

Então, o mercado financeiro está certo em subir o agravamento da crise política?

Os mercados financeiros antecipam, este é o papel deles. Eu acho que em parte o que está acontecendo é que tinha muita gente a descoberto vendendo Brasil – então uma parte dessa subida é técnica também. Você fica mais exposto se você está vendendo Brasil num momento em que uma mudança pode acontecer para deixar todo mundo bullish (otimista) com o Brasil outra vez. E há outros fatores, as commodities estão subindo, o que não tem nada a ver com a cena política. Agora, o mercado está apostando num cenário positivo, mas obviamente não é o único. A gente está desde o começo da conversa falando de uma hipótese. Mas a presidente pode ficar até o final do mandato, provavelmente numa situação muito mais fraca do que agora, o que significa que a qualidade da política econômica vai ser ainda pior. As chances de políticas populistas com ela permanecendo aumentam. Segundo, pode haver uma transição para um governo que não seja o que a aposta do mercado supõe. Basta lembrar que quando Itamar assumiu, teve quatro trocas de ministro da Fazenda em sequência rápida – a coisa inicialmente andou muito mal. Podemos perfeitamente desenhar cenários menos benignos. (fernando.dantas@estadao.com)

Esta entrevista foi publica pela AE-News/Broadcast em 4/3/16, sexta-feira.