Governo semeia confusão

Num momento em que reduzir a incerteza é primordial para garantir o crescimento econômico, Jair Bolsonaro atiça os ânimos na política e Paulo Guedes sobressalta mercados com declarações impactantes, mas sem um plano consistente.

Fernando Dantas

13 de novembro de 2020 | 19h24

No momento em que há um apagão nos dados do Ministério da Saúde sobre a Covid-19, sem uma contagem confiável de novos casos e óbitos desde 4/11, o ministro da Economia, Paulo Guedes, acha por bem declarar que, caso haja uma segunda onda da pandemia, “vamos decretar estado de calamidade pública e vamos recriar [o auxílio emergencial]”, segundo reportagem de Lorenna Rodrigues, do Estadão.

A matéria menciona também que, em evento da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), Guedes disse que, diante de uma segunda onda, em vez de gastar 10% do PIB poderia se despender 4%.

As declarações de Guedes fazem sentido do ponto de vista social, mas são elementos a mais de incerteza. Porque seria preciso definir melhor o que de fato seria considerado uma nova onda da Covid-19.

Há muitos relatos de hospitais e UTIs voltando a ficar lotados em diferentes partes do País. Mas, em termos de número de óbitos anunciados ao dia, houve uma queda bastante regular do final de julho até o início de novembro. De um pico em torno de 1.100, a média diária de sete dias consecutivos caiu para menos de 400.

Agora, num momento crucial, em que de fato existe uma nova onda em partes do mundo, especialmente na Europa, o confuso Brasil do presidente Jair Bolsonaro deixa, há mais de uma semana, de ter números minimamente confiáveis.

Para tornar o quadro ainda mais difícil de interpretar, Bolsonaro agiu para sabotar os testes e a percepção de confiabilidade pelo público da CoronaVac, para atingir João Doria, governador de São Paulo, que vê como seu rival político.

Evidentemente, o timing da vacinação da população brasileira é um dado crucial para se avaliar os riscos de uma segunda onda. Caso haja imunização maciça mais para o início do ano que vem, a eventual segunda onda seria abortada, e nem seria preciso gastar todos os 4% do PIB adicionais mencionados por Guedes. Caso a vacinação só aconteça mais para meados do ano, a situação sanitária e fiscal se complica.

Todas essas questões são fundamentais, não só do ponto de vista da saúde pública, mas também da economia – com a qual o presidente diz tanto se preocupar, desde o início da pandemia.

A vitória de Joe Biden nos Estados Unidos provocou uma onda, até certo ponto surpreendente, de alívio e redução de percepção de risco nos mercados globais, que foi especialmente sentida por nações emergentes, como o Brasil.

Os ativos brasileiros, como câmbio, posições no mercado futuro de juros e bolsa, foram beneficiados e ainda estão sob o efeito dessa onda benfazeja, embora naturalmente sujeitos às flutuações nos dois sentidos típicas dos mercados.

Seria o momento de o governo e a equipe econômica se reorganizarem, apresentarem um plano de jogo crível e racional, especialmente na delicada seara fiscal, para reduzir a incerteza.

É bom não esquecer que todo o ruído da pandemia não elimina o problema de fundo que a economia brasileira veio apresentando depois da grande recessão de 2014-2016, que é o de manter, mesmo na retomada, um ritmo baixíssimo de crescimento econômico.

Os indicadores econômicos de curto prazo mandam, como é de costume, sinais difíceis de concatenar com precisão – dados de varejo um pouco decepcionantes ontem, serviços um pouco melhores hoje.

Mas vai se desenhando um quadro em que está claro que as gigantescas – e insustentáveis em termos fiscais, caso perdurem – transferências ligadas à pandemia, com destaque para o auxílio emergencial, turbinaram a demanda este ano. E o seu fim será um fator relevante a deprimir a demanda em 2021, que pode ou não ser contrabalançado por outros vetores, como a recuperação do mercado de trabalho.

Também parece um risco a não ser subestimado o impacto nas condições financeiras (câmbio, juros, bolsa, inflação etc.) de eventual novo impulso fiscal, como os 4% do PIB de Guedes. Com a dívida pública bruta caminhando para 100% do PIB, o impacto negativo nas condições financeiras pode ser tão brutal que mais do que anularia o impulso à demanda, levando a resultado em termos de atividade, emprego e renda até pior.

É nesse prisma que o governo deve formular e executar suas ações. Reduzir a incerteza e alongar o horizonte de investidores e consumidores é fundamental para que a economia possa crescer satisfatoriamente em 2021.

O que se vê, no entanto, mesmo diante do “choque do bem” da eleição de Biden, é um governo mais confuso do que nunca, no qual o presidente atiça o fogo do acirramento dos ânimos na política e o ministro da Economia pula de declaração impactante em declaração impactante (outras delas foi sobre o risco de hiperinflação), sem jamais apresentar um plano consistente e sóbrio, com começo, meio e fim.

O governo brasileiro não ajuda o mundo e as circunstâncias a ajudá-lo.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

 Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 12/11/2020, quinta-feira.

Tendências: