bolsa

E-Investidor: Itaúsa, Petrobras e Via Varejo são as ações queridinhas do brasileiro

Governo vai de emprego, oposição vai de inflação

Fernando Dantas

25 de março de 2014 | 15h41

Parece que o mercado de trabalho será o grande trunfo do governo na campanha eleitoral, e a inflação, o grande trunfo da oposição. Enquanto o emprego dá mostras de que talvez ainda tenha fôlego para manter a popularidade presidencial até o momento da votação, a alta de preços ganha fôlego e pode colocar em xeque a estratégia cautelosa do Banco Central (BC).

As expectativas para o IPCA de 2015 voltaram a subir, depois de ficarem estacionadas em 5,7% desde janeiro. Agora, já se elevaram para 5,8%, e muitos analistas acham que podem ir bem mais longe. O que conta para a guerra eleitoral é a inflação corrente do ano, que também deve subir no acumulado de 12 meses, mas as expectativas para 2015 são um sintoma particularmente significativo de que a deterioração do quadro inflacionário durante o governo da presidente Dilma Rousseff ainda está longe de ser revertida.

Assim, a novidade recente é a aceleração da inflação de alimentos, ligada à estiagem. Mas o fato mais preocupante é que, mesmo tendo promovido uma alta da Selic de 3,5 pontos porcentuais desde abril do ano passado, o Banco Central não conseguiu recuperar a capacidade de coordenar as expectativas. A alta da inflação esperada em 2015 demonstra este ponto.

Muitos analistas esperam que, passadas as eleições, e mais provavelmente ao longo do próximo ano, o represamento dos preços administrados, que afeta itens como gasolina, eletricidade e ônibus urbanos, seja ao menos parcialmente desfeito. Com isso, aumenta a probabilidade de que a inflação de 2015 seja superior à de 2014, e os mais pessimistas já veem risco de estouro do limite de 6,5% da meta no ano que vem.

Mas mesmo em 2014, em meados do ano, a inflação pode trafegar perto do teto, o que certamente dará combustível eleitoral para a oposição.

Nesse sentido, causa estranheza em alguns a redução do ritmo de alta da Selic para 0,25 ponto porcentual na última reunião do Copom. A ideia era de que a mudança sinalizaria o fim em breve do ciclo de elevação, o que se mantém como um cenário bem plausível. Mas agora já começa a aparecer a possibilidade, para alguns, de que poderia haver mais aumentos remanescentes de 0,25 do que se supunha inicialmente.

Caso isso se confirme, de novo se manifestaria um padrão de conduta do BC que aparentemente não leva em consideração que movimentos mais fortes e mais rápidos podem antecipar ganhos, reforçar a credibilidade e ajudar no trabalho fundamental de passar as rédeas de novo nas expectativas mais de longo prazo.

Haveria três explicações possíveis para o BC abrir mão de movimentos mais contundentes que poderiam resgatar a sua credibilidade. A primeira, de que a autoridade monetária discorde desta visão, não é muito provável, porque os participantes do Copom são sofisticados demais para não perceberem algo tão óbvio e consensual.

A segunda hipótese, mais plausível, é de que o BC do presidente Alexandre Tombini esteja extremamente preocupado com a perda de tração da economia brasileira, cujo baixo crescimento nos últimos anos surpreendeu até os mais pessimistas. Finalmente, há a questão política do calendário eleitoral. A vitalidade remanescente do mercado de trabalho, como mencionado, é talvez a maior arma da situação, e zelar pela sua sobrevida até o momento da ida do Brasil às urnas deve ser uma preocupação central dos estrategistas do governo.

Ironicamente, para o Banco Central, o trunfo do governo no emprego é um dos entraves a que cumpra sua missão de minar o trunfo da oposição, controlando a inflação. A permanência do mercado de trabalho aquecido é um certo enigma, com explicações que provavelmente são múltiplas, mas certamente é também um obstáculo à estratégia desinflacionária do Copom.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast na sexta-feira, 21/3/14.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: