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Grécia: soberania X integração

Na base da crise grega, há uma disputa entre dois modelos: um que privilegia a integração europeia em moldes alemães; outro que prioriza a soberania das nações.

Fernando Dantas

13 de julho de 2015 | 21h38

No seu livro “Stress-Test: Reflections on Financial Crises” (Teste de Estresse: Reflexões sobre Crises Financeiras), lançado no ano passado, o ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Timothy Geithner, descreve um encontro (quando ainda estava nesta função) com o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, em Sylt, uma ilha na costa alemã no Mar do Norte. Geithner admite que considerou “ameaçadora” a estratégia então sugerida por seu colega alemão para lidar com a crise grega.

No encontro, Schäuble disse que muitos na Europa achavam que expulsar a Grécia do euro era uma estratégia plausível e até desejável. Se isso ocorresse, seria mais fácil para a Alemanha dar suporte financeiro à zona do euro porque isto não seria percebido como um resgate da Grécia. Em segundo lugar, o trauma provocado pela saída da Grécia do euro iria causar medo em outros países e levá-los a uma renúncia maior à sua soberania em favor de uma união bancária e fiscal mais forte.

Segundo Geithner, “o argumento era de que deixar a Grécia pegar fogo tornaria mais fácil construir uma Europa mais forte com uma barreira contra incêndios mais crível”. O susto de Geithner com a declaração de Schäuble deveu-se em grande parte ao fato de que, à época, o medo de que uma saída caótica da Grécia levasse por contágio a um desastre financeiro global era grande, com a memória ainda fresca da crise de 2008 e 2009.

Passados três anos, é tentador interpretar o acordo draconiano fechado hoje entre a Grécia e a “Troika” (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI) como reflexo dessa postura extremamente dura da Alemanha e de outros países europeus do Norte em relação aos problemas gregos.

Mas talvez a questão mais crucial em jogo, e que esteve presente na conversa entre Geithner e Schäuble, seja a dicotomia entre soberania nacional e maior integração europeia.

Em recente artigo, quando a vitória do ‘não’ no referendo grego ainda dava a impressão de que o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, caminharia na direção de resistir às exigências da Troika, o economista Dani Rodrik, de Harvard, fez interessante reflexão sobre o problema da soberania na crise grega.

Segundo Rodrik, ao contrário da interpretação de muitos, o resultado do referendo não significava exatamente uma vitória da democracia, porque a vontade democrática do povo grego de que o país fosse financiado se contrapunha à resistência também democrática em financiar a Grécia por parte dos povos de alguns dos países financiadores.

Na verdade, ele continuou, o “não” por parte do eleitorado grego é mais uma afirmação da “prioridade da sua democracia (da Grécia) sobre aquelas (democracias) em outros países da zona do euro”. Desta forma, o resultado do referendo foi uma afirmação da soberania nacional, ou, como escreve Rodrik, “do seu direito (da Grécia) como nação de determinar seu caminho econômico, social e político”.

O economista considera que o fortalecimento da soberania é uma força em direção contrária da construção de uma União Europeia cada vez mais integrada.

Curiosamente, a reviravolta de hoje, com a Grécia cedendo a boa parte das exigências, significa que a Alemanha não desistiu de lutar por mais integração à custa de menos soberania. Na verdade, este talvez seja o grande embate por trás da queda de braço da crise grega.

O economista Gino Olivares, do Insper, nota que muitos analistas consideram que os alemães têm uma posição mais baseada em princípios nesse tipo de negociação do que, por exemplo, os americanos, que tendem a ser mais pragmáticos. Nesta visão, a questão do “moral hazard”  – que pode ser traduzida como “risco moral”, mas que também remete a “exemplo moral”  –  é muito cara à Alemanha.

A solução da crise grega torna-se efetivamente uma disputa entre o princípio da soberania nacional, de um lado, e o aprofundamento da união nos moldes da Alemanha, que é o país mais forte econômica e financeiramente e que, portanto, tenta impor suas condições. É uma abordagem, do ponto de vista alemão, de esticar ao máximo a corda das exigências à Grécia: ou o país cede soberania ou fica com ela, mais sai da zona do euro.

Como comenta o economista Tomás Brisola, economista-chefe da gestora BBM Investimentos, “é complicado administrar uma moeda única com Estados reafirmando sua soberania, mas uma entidade política supranacional também é utópica”. É neste nó que se debate hoje a zona do euro. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 13/7/15, segunda-feira.

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