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Greve agrava situação do centro

Colapso do governo Temer dificulta candidaturas reformistas e liberais.

Fernando Dantas

06 Junho 2018 | 00h12

A greve dos caminhoneiros e seus impactos sobre a economia ampliaram e cristalizaram a aversão da grande maioria da população ao governo Temer, na visão de analistas políticos ouvidos pela coluna. Nesse sentido, a greve não chegou a mudar o tabuleiro eleitoral, mas deu mais um forte impulso na direção de um quadro que já vinha se desenhando: crescentes dificuldades para a centro-direita, que, no entanto, não se traduzem automaticamente em vantagem para a esquerda ou para Bolsonaro, que também têm problemas sérios pela frente.

Rafael Cortez, analista político da consultoria Tendências, considera que as candidaturas de centro-direita, que de certa forma estão ligadas na percepção do eleitorado ao “status quo” – isto é, ao governo Temer e à sua política econômica – sofreram mais um impacto negativo com a greve.

Apesar de nunca ter acreditado que a candidatura própria do PMDB – agora encampada por Henrique Meirelles – fosse até o fim, hoje Cortez pensa que o PSDB de Geraldo Alckmin pensará duas vezes antes de se aliar ao partido de Michel Temer, mesmo que esta possibilidade lhe seja ofertada. O atual governo se tornou extremamente radioativo e os tucanos tentarão evitar ao máximo a contaminação.

Por outro lado, o analista diz que “os projetos de oposição ganharam competitividade, e o Ciro Gomes é um dos potenciais vencedores dessa crise”.

O problema da esquerda, porém, é a perspectiva de divisão de votos no primeiro turno entre Ciro e a candidatura do PT. Ricardo Ribeiro, analista político da consultoria MCM, observa que “Lula ainda tem efeito eleitoral não desprezível”. Para Ribeiro, o fracasso do governo Temer reduz a importância relativa do fracasso de Dilma como fator a ser explorado na campanha eleitoral.

Assim, as chances de que Ciro e o candidato do PT rachem o eleitorado de esquerda aumentam o risco de que este campo político não chegue ao segundo turno, mesmo com toda a rejeição do eleitorado ao governo Temer e a extensão deste sentimento às candidaturas de centro-direita.

O protagonismo de Jair Bolsonaro durante a greve dos caminhoneiros e a hostilidade ao “status quo” revelada pelo grande apoio popular ao movimento sinalizam, em princípio, um reforço das candidaturas extremistas. A principal, claro, é a do próprio Bolsonaro.

Essa percepção aparece, por exemplo, no site online de apostas neozelandês Predict It (de natureza educativa, e no qual se joga a dinheiro, porém em valores irrisórios). Na aposta sobre o resultado a eleição brasileira, Alckmin, que detinha a liderança, despencou a partir de 24 de maio, quando a greve dos caminhoneiros se tornou o principal assunto nacional, ao mesmo tempo em que Bolsonaro saía da terceira posição para a liderança disparada.

Tanto Cortez quanto Ribeiro, contudo, são céticos quanto a ganhos consistentes e duradouros de Bolsonaro com a greve dos caminhoneiros. Cortez pensa que o próprio recuo do candidato, que depois de apoiar o movimento pediu a volta ao trabalho, mostra que Bolsonaro percebeu que o excesso de radicalização cria um teto para a sua candidatura.

Já Ribeiro diz que “no calor do movimento, Bolsonaro teve visibilidade se posicionando claramente a favor, mas ele continua falando para os convertidos e não creio que tenha condições de ampliar o seu público cativo”.

Na contramão dos dois analistas e de uma visão bastante disseminada da importância da greve dos caminhoneiros – alguns observadores chegaram a compará-la às manifestações de junho de 2013 –, o cientista político Carlos Pereira, da Ebape/FGV, pensa que os efeitos são bastante limitados e não impactam o quadro eleitoral.

“Acho que vai diluir e em 15 dias ninguém mais fala em greve de caminhoneiro, ainda mais com o começo da Copa”.

Segundo Pereira, o governo conseguiu retomar as rédeas da situação de forma até surpreendente, e deve conseguir aprovar a reoneração e os ajustes de alíquotas de tributos no Congresso, negociados para terminar com a greve.

O lado negativo, para Pereira, é a repartição da conta das concessões aos caminhoneiros para toda a população. Isto, por sua vez, traz o risco de que outras categorias explorem os sinais de fraqueza política do governo para fazer movimentos semelhantes. Por outro lado, o governo ficou escaldado e provavelmente vai agir com mais energia e antecipação, como pode ter sido o caso diante da ameaça de paralisação dos petroleiros. Além disso, Pereira considera que o governo ainda tem “certas rédeas de apoio legislativo”. Analisando as perspectivas de Temer até o final do ano, o cientista político diz que não vê um processo de “sarneyzação”. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 4/6/18, segunda-feira.