Guinada à esquerda

Vitória de Boric no Chile consolida bom momento das forças de esquerda na América Latina, mas desafio do novo presidente chileno é descomunal.

Fernando Dantas

20 de dezembro de 2021 | 23h50

A vitória no segundo turno das eleições presidenciais do esquerdista Gabriel Boric no Chile contra o ultradireitista José Antonio Kast soma-se ao grande favoritismo – ainda distante da eleição, é verdade – de Lula no Brasil para compor um momento favorável para a esquerda latino-americana.

Também se pode adicionar na mesma conta de pontos para esquerda as vitórias em eleições presidenciais de Pedro Castillo no Peru, em julho, contra Keiko Fujimori; e, em novembro, a de Xiomara Castro em Honduras.  Outro fato alentador é a popularidade acima de 60% de Andrés Manuel Lópes Obrador (AMLO, como é conhecido) no México, num momento difícil para governantes de países emergentes por causa do rescaldo econômico da pandemia.

É claro que nem tudo são flores para a esquerda latino-americana. Na Argentina, o presidente Alberto Fernández está num dos momentos de menor popularidade do seu mandato e o domínio de países como Venezuela, Nicarágua e Cuba por líderes autoritários de esquerda não tem nem ao menos os bons resultados econômicos de ditaduras como Vietnã e China para exibir.

De qualquer forma, como mostra o Chile, a esquerda está fazendo avanços importantes no jogo democrático da região, e, ao desgaste da agenda de austeridade e reformas econômicas, associada à centrodireita liberal, soma-se agora o desastre da extrema-direita bolsonarista no Brasil.

Na primeira década deste século, governos de esquerda em diversos países latino-americanos se beneficiaram do boom de commodities (assim como alguns de direita), e promoveram forte avanço social. Até a Venezuela parecia ir bem socioeconomicamente por um breve momento.

Uma grande parte dos ganhos sociais, porém, foi baseada não na consolidação de ganhos de produtividade, essencial para que não se retroceda, mas sim em transferências ou sobreaquecimento do mercado de trabalho, especialmente dos mais pobres.

Com o fim do boom de commodities em 2012, a casa caiu em quase toda a parte na região e, quanto maiores os excessos do tempo de fartura, maior foi o retrocesso.

O Chile há muito tempo é um dos países mais bem arrumados da América Latina, e sofreu bem menos com o fim do boom do que o Brasil, por exemplo, mas ainda assim desacelerou fortemente. Os protestos iniciados em 2019 revelaram um enorme mal estar com a forma desigual pela qual a conta dos tempos de vaca magra é repartida entre os chilenos.

A insatisfação desaguou numa Constituinte e na eleição de um esquerdista radical, para padrões chilenos, mas que durante a campanha, especialmente na reta final, caminhou para o centro para derrotar a extrema-direita.

O desafio de Boric no Chile é imenso. A narrativa triunfalista de 2019 esconde algumas verdades desagradáveis. Ao modelo econômico – iniciado, com muitos erros, na ditadura de Pinochet e aperfeiçoado por governo centristas durante a democracia – os chilenos de hoje devem o fato de usufruírem de uma renda per capita média e de padrão de vida bem superiores ao dos outros principais países latino-americanos.

Em alguns quesitos, é verdade, com destaque para as aposentadorias, eles estão atrás. Mas o combatido sistema previdenciário chileno – que já teve algumas etapas de abrandamento desde a versão inicial de Pinochet, cuja exigência asiática de poupança dos pobres é claramente incompatível com o ethos latino-americano – é uma faca de dois gumes.

Se, por um lado, ele efetivamente não provê o nível mínimo de renda para as massas desvalidas, na velhice e em outras incapacitações ao trabalho, que se considera adequado na América Latina, pelo lado macroeconômico o sistema previdenciário chileno é um importante ingrediente no nível regionalmente alto de poupança e investimento do país.

E essa poupança e esse investimento relativamente altos fizeram parte da receita que permitiu ao Chile ser o único entre os países principais da América Latina que, nas últimas décadas, deu sinais de que poderia superar a armadilha da renda média.

Agora, Boric tem pela frente a tarefa muito difícil, do ponto de vista da economia política, de dar ao sistema socioeconômico chileno uma injeção de igualitarismo e mais generosidade com os pobres sem matar a galinha – isto é, o crescimento potencial – cujos ovos já nem têm tanto ouro assim nos últimos anos.

Se o novo presidente chileno encontrar esse caminho e conseguir trilhá-lo com êxito, sem dúvida será um farol positivo para outros mandatários de esquerda que estejam no poder ou a ele cheguem na América Latina nos próximos anos. Isso inclui o Brasil, claro, o principal país da região.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 20/12/2021, segunda-feira.