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Hartung e a grande oportunidade para o Brasil

Ex-governador do Espírito Santo, que se aproximou de Luciano Huck (cotado para a disputa presidencial de 2022), diz que há uma grande janela aberta para reformas econômicas no Brasil, sem precedentes desde a redemocratização.

Fernando Dantas

17 de dezembro de 2019 | 11h01

Paulo Hartung, ex-governador do Espírito Santo, diz que, como testemunha participante da vida política nacional desde a redemocratização, nunca viu “a janela tão aberta para reformas econômicas e reformulação do Estado quanto em 2019”.

Para ele, há uma “autorização social para reformas” sem precedentes, o que ficou claro na tramitação da reforma da Previdência. Mas esse fenômeno já vem de algum tempo, e se manifestou também na aprovação da reforma trabalhista e do teto de gastos, entre outras medidas.

Em todos esses casos, Hartung – que já foi deputado estadual, deputado federal, senador, prefeito de Vitória e governador do Espírito Santo –, ficou surpreso com a pouca resistência organizada às mudanças e com o apoio ou no mínimo a aceitação tácita da sociedade.

Mas ele teme que a janela de oportunidade seja aproveitada de forma somente muito parcial.

O problema, para Hartung, são as falhas de articulação política do governo Bolsonaro, que resolveu governar sem formar uma maioria parlamentar, e a pequena disposição do presidente de encabeçar com firmeza a agenda de reformas.

O ex-governador atribui essa inédita “autorização social para as reformas” à reação da sociedade à enorme recessão de 2014-2016, seguida de lentíssima recuperação.

A sua hipótese é de que as famílias brasileiras tiveram o gosto de avanços econômicos concretos no seu dia a dia, como a grande ampliação do acesso ao consumo, com a estabilização da moeda nos anos 90 e posterior boom de commodities na década passada.

Com a crise, esses ganhos foram perdidos de forma muito rápida, e agora a sociedade quer voltar a desfrutar daquela melhora, e está disposta a pagar o preço para isso – como, por exemplo, o de aceitar reformas que podem trazer perdas individuais, como a da Previdência, mas que ajudam a reorganizar a economia.

A grande questão é por que os brasileiros desta vez não estariam agindo como na tradição populista típica do Brasil e de outros países latino-americanos. Ou seja, elegendo políticos que prometam atalhos imediatos e insustentáveis para a melhora da sensação econômica, como aumentos de salário mínimo e de benesses públicas em geral.

Para explicar essa mudança, Hartung diz que a sociedade de fato não mira especificamente em detalhes tecnocráticos de agenda econômica. Na verdade, o foco foi muito mais na questão da corrupção, mas de forma geral a população associou um período de desmando do Executivo como sendo a causa principal da crise que roubou os ganhos econômicos obtidos anteriormente.

Dessa forma, “a autorização social” para as reformas seria um voto de confiança para uma reorganização geral da casa. Essa agenda, para o eleitor mediano, deve ter o combate à corrupção como um dos focos principais, mas também pode se estender a medidas econômicas que o governo e os formadores de opinião consigam convencer a sociedade de que são indispensáveis.

Hartung, que considera positivo o saldo da gestão de Paulo Guedes no Ministério da Economia, critica, entretanto, o envio recente das três PECs – cujo conteúdo ele apoia – ao Senado.

Ele considera que, além de não estabelecer uma prioridade entre as três PECs, o envio ao Senado – que foge do ritual mais tradicional de encaminhar reformas primeiro à Câmara – atiça uma disputa de protagonismo entre as duas Casas Legislativas, o que não ajuda aprovar as medidas.

Na sua visão, para melhor aproveitar a janela de oportunidade, o governo deveria ter enviado a PEC emergencial, que ele reputa a mais importante a curto prazo, já durante a tramitação da reforma da Previdência no Senado.

Mesmo com essas ressalvas, Hartung prevê que “alguma coisa vai andar” das PECs enviadas, mas o governo terá uma negociação mais difícil com o Senado e a Câmara. Ao contrário de diversos analistas, o ex-governador não acha que o fato de 2020 ser um ano de eleições municipais vai necessariamente paralisar a pauta legislativa e de reformas.

Hartung aproximou-se desde o ano passado, via Arminio Fraga, de Luciano Huck, que é tido como um potencial candidato à presidência em 2022.

O ex-governador, porém, diz que não vê Huck como um pré-candidato, mas sim como alguém que está “militando pelo Brasil”, dedicando-se a movimentos de formação de novas lideranças políticas e de formulação de políticas públicas.

Segundo Hartung, 2022 está muito distante e articular candidaturas presidenciais agora é “jogar energia boa numa coisa inútil”. Mas ele se diz engajado em reorganizar o que chama de seu “campo político”, que resiste a chamar de centro:

“Se chamar de centro não ganha eleição”, ele observa, em tom de brincadeira.

Esse campo, que Hartung diz ter sido reduzido à irrelevância em 2018, mas para o qual ele vê chances concretas de reconstrução agora, seria a combinação de uma agenda econômica racional, de bom funcionamento da economia de mercado, com um programa intenso de combate à desigualdade e de promoção da mobilidade social, dentro de uma visão socialdemocrata.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 16/12/19, segunda-feira.