IBGE: o racha dos ex-presidentes

Ex-presidentes do IBGE se dividem em dois grupos, a favor e contra as mudanças do Censo 2020, com destaque para o enxugamento do questionário.

Fernando Dantas

30 de julho de 2019 | 23h46

A redução do questionário do Censo 2020 está dando panos para mangas entre os ex-presidentes do instituto, que se dividiram em dois campos, contrários e favoráveis à mudança.

Em carta aberta de 15/07, os ex-presidentes Eurico Borba, Eduardo Nunes, Wasmália Bivar, Paulo Rabello de Castro e Roberto Olinto expressam “extrema preocupação com os rumos que tomaram as recentes posições do Governo Federal e da direção atual do IBGE frente ao desafio de se preparar e realizar uma operação que mobiliza cerca de 200 mil recenseadores sobre o imenso território do País”.

Na quinta-feira, 29/7, os ex-presidentes do IBGE Edmar Bacha, Edson Nunes, Charles Mueller, Eduardo Guimarães, Silvio Minciotti, Simon Schwartzman e Sérgio Besserman reagiram com outra carta pública, em que declaram que “não procede, como às vezes tem sido dito, que a redução do tamanho dos questionários do Censo significaria a perda irreparável de séries históricas sobre diferentes características da população”.

Como se vê, a atual presidente do IBGE, Susana Guerra, está na difícil situação de desagradar um grupo ou outro dos seus antecessores.

Duas questões se cruzam na redução do questionário para o Censo de 2020: economia orçamentária e modernização (ou não, dependendo do ponto de vista) dos procedimentos.

O aperto fiscal recomenda que todas as ações do governo busquem economias, mas, no caso do Censo, não a ponto de provocar qualquer dano de qualidade a este importantíssimo instrumento para a elaboração de políticas públicas, a atualização de uma vasta coleção de pesquisas por amostragem e a divisão de recursos tributários entre os níveis da Federação.

Dessa forma, qualquer mudança no Censo tem que passar pelo crivo da qualidade, e é aqui que a polêmica começa.

Resumidamente, o orçamento do Censo de 2020 foi reduzido de R$ 3,1 bilhões para R$ 2,3 bilhões, sendo que uma das mudanças foi a redução do número de perguntas do questionário de 112 para 76.

Susana tem dito que a redução das perguntas tem motivação técnica, como agilizar as entrevistas, e não a economia orçamentária.

O grupo de ex-presidentes do IBGE favorável às mudanças em curso nota que a tendência internacional é de reduzir o tamanho dos questionários de censos decenais, intensificando o uso de pesquisas amostrais, registros administrativos e big data.

Já Olinto, signatário da carta aberta de ex-presidentes crítica à condução do Censo de 2020, escreveu em recente artigo para o Blog do Ibre que o uso de registros administrativos de forma complementar às pesquisas censitárias e amostrais não é nada novo, mas “muito antigo e disseminado na produção de estatísticas oficiais”. Para ele, o desafio atual é a utilização de big data.

No caso dos registros administrativos, entretanto, Olinto argumenta que seu uso como complemento ao Censo (ou até substituição total, como na Dinamarca, Finlândia, Noruega e Suécia) exige uma transição trabalhosa e de vários anos para a constituição de cadastros adequados, que devem ter as seguinte características: “enumeração individual, simultaneidade entre as datas da operação de campo dos registros no cadastro, universalidade, cobertura de pequenas áreas e pequenos grupos populacionais e periodicidade definida”.

Segundo Olinto, não se pode usar o argumento do uso de registros administrativos para a redução do questionário do Censo de 2020, porque no Brasil de hoje os cadastros não têm cobertura populacional.

“Há um esforço do IBGE na direção de um cadastro nacional de endereços para fins estatísticos (CNEFE) e nada mais”, escreveu o ex-presidente do IBGE em seu artigo.

Já os ex-presidentes do IBGE favoráveis às mudanças afirmam que “o questionário do Censo brasileiro tem sido diferente a cada década, e não se pode pretender que ele fique congelado no tempo”.

Para eles, instituições de pesquisa no mundo todo constantemente reveem e atualizam seus instrumentos de coleta de dados, e “não faltam instrumentos aos pesquisadores para comparar informações obtidas em diversos momentos e por diversas metodologias”.

Essa é uma discussão essencialmente técnica, que não deveria ser politizada ou polarizada. Talvez o conjunto de ex-presidentes do IBGE e a atual presidente e sua diretoria possam tentar chegar a um esboço de consenso que garanta a melhor qualidade possível para o Censo 2020, dentro da atual realidade orçamentária.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 29/7/19, quinta-feira.