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Ideia errada na hora errada

Fernando Dantas

25 de abril de 2014 | 18h33

O timing não poderia ser pior. Na quarta-feira (23/4), dia seguinte à divulgação de que a projeção mediana do mercado para o IPCA de 2014 (6,51%) ultrapassou o limite de tolerância do sistema de metas de inflação, surge a notícia, no jornal O Globo, de que técnicos do governo acreditariam que os alimentos in natura, por suas fortes oscilações, deveriam ser retirados do cálculo do IPCA.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, em entrevista à imprensa na quarta, desmentiu a notícia, e disse que quem retira alimentos e combustíveis da inflação são os Estados Unidos. Já o diretor de Fiscalização do Banco Central, Anthero de Moraes Meirelles, afirmou que o BC é contra a mudança, “mas sem prejuízo para o debate”.

É claro que os desmentidos da Fazenda e do BC são bem vindos e correspondem à reação correta, mas, da forma como foram feitos, podem não remover inteiramente os rumores e a confusão.

Em primeiro lugar, mexer com a metodologia do IPCA deve ser uma prerrogativa do IBGE que, supõe-se, tem independência para cuidar dos seus índices sem interferência do BC ou da Fazenda. Talvez fosse uma boa oportunidade para a equipe econômica reafirmar esse princípio, dado que a celeuma em torno do adiamento da Pnad Contínua já criou um mal estar nessa área. Diante da política deliberada de manipulação dos índices de inflação pela vizinha e parceira Argentina, e com um histórico de práticas semelhantes durante a ditadura militar, o Brasil é um país naturalmente suscetível a temores quando o assunto é a independência da instituição oficial de indicadores econômicos.

Outro problema é que a informação de Mantega sobre o expurgo de itens do índice de inflação norte-americano é incorreta.

Os americanos de fato calculam núcleos de inflação que excluem alimentação e energia. E é verdade que o Federal Reserve (Fed, BC americano), como qualquer outro banco central, examina atentamente os núcleos de inflação dentro da miríade de variáveis econômicas que acompanha, e que norteiam suas decisões de política monetária.

Ao contrário do Brasil, o Fed não tem um sistema de metas de inflação explicitado em decretos e resoluções. Mas, por meio da sua comunicação, o Fed já explicitou que considera que uma inflação anual de 2% é a mais consistente com o seu mandato, que leva em conta tanto inflação quanto desemprego.

Além disso, o Fed também já revelou que, no que concerne à inflação anual de 2%, o índice a ser levado em conta é o índice de preços para despesas de consumo pessoal (PCE, na sigla em inglês), que se extrai do cálculo do PIB.

Ora, fazem parte da composição do PCE americano itens com frutas e legumes frescos, ovos, carnes, etc. Não se pode dizer que o principal índice de inflação americano levado em conta pela autoridade monetária do país expurgue os alimentos in natura.

É verdade que o PCE é construído com uma fórmula que reflete as mudanças na composição do gasto – outro ponto mencionado pelos técnicos na matéria de O Globo foi o efeito substituição em itens cujo preço se elevou muito. Mas a flexibilidade da fórmula do PCE é bem diferente de retirar alimentos do índice, o que só é feito quando se estima o núcleo por exclusão.

Portanto, não parece haver muito o que estudar – ao contrário do que Meirelles, do BC, sugeriu – em relação aos rumores que constam da matéria de O Globo.

Outra questão, bem diferente (mas que talvez seja o que confusamente os técnicos teriam defendido na reportagem de O Globo), é a de saber se um sistema de metas de inflação deve ter como meta a inflação cheia ou um núcleo.

É uma discussão que já foi intensamente travada desde que o primeiro sistema explícito de metas foi introduzido na Nova Zelândia em 1990. Mas um trabalho de Gill Hammond, do Banco da Inglaterra (BC britânico), de 2009 e atualizado em 2012, mostra que, entre 27 países com sistemas completos de meta, praticamente todos utilizavam uma medida cheia de índice de preços ao consumidor (a Tailândia havia proposto a mudança de núcleo para inflação cheia quando o estudo foi feito, o que fez Hammond registrar o país no grupo de inflação cheia – mas a Tailândia acabou preservando o núcleo como meta).

De qualquer forma, fica evidente que a discussão sobre a utilização de um núcleo é hoje muito mais teórica do que prática.

Num momento particularmente delicado da história do sistema de metas da inflação no Brasil, com o IPCA ameaçando estourar o teto numa economia em ritmo lento, e com a autonomia do Copom sob dúvidas, a equipe econômica deveria enterrar essa história de forma cabal. Não deveria ser cogitada num momento como o atual, nem é praticada pelos Estados Unidos.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada da AE-News/Broadcast na terça-feira, 25/4/14.

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