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Ilan: “Tem que recuperar a confiança”

O economista-chefe do Itaú-Unibanco, Ilan Goldfajn, conversa sobre o PIB do primeiro trimestre e o que esperar do segundo, do terceiro e em diante.

Fernando Dantas

02 de junho de 2015 | 22h50

O primeiro trimestre veio um pouco menos negativo que o esperado, mas Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú-Unibanco, não vê alívio, porque prevê que haverá piora significativa no terceiro trimestre. No terceiro trimestre, pode parar de piorar, mas ainda estará muito longe de um desempenho positivo. Goldfajn acha que resgatar a confiança é o ingrediente fundamental para tirar a economia brasileira do fundo do poço. Ele se diz otimista em relação ao ajuste, mas pessimista em relação às reformas que poderiam fazer o País voltar a crescer. Para 2015 e 2016, as projeções de PIB do Itaú-Unibanco são de respectivamente queda de 1,5% e crescimento de 0,7%. A seguir, a entrevista;

 

Como o sr. viu o resultado do PIB do primeiro trimestre?

O tom geral é que continuamos com uma economia fraca. Houve queda de 0,2%, é um resultado negativo, que vem depois de PIBs fracos nos últimos tempos. Nós tínhamos previsto queda de 0,4%, logo foi um pouquinho melhor, mas a tendência ainda é de queda. Considerando o grau de incerteza natural nesse tipo de projeção, está mais ou menos em linha. A tendência é de queda e acho que no segundo trimestre deste ano certamente esse número negativo vai se aprofundar. Estimamos uma queda de 1%, com viés de baixa, pode até ser pior, algo como -1,5%. A tendência não é boa.

Por que o segundo trimestre deve ser tão ruim?

No primeiro trimestre tivemos uma queda de investimento de 1,3%, e acho que vai ser maior no segundo trimestre. O recuo do investimento no primeiro trimestre foi menor do que prevíamos, de 3,6%, mas não estou esperançoso de que seja melhor no segundo. Todas as estimativas de confiança ainda estão muito baixas, em queda, assim como dados de bens de capital, de produção, os estoques estão altos – não parece que chegamos ao fim do poço. O consumo teve queda de 1,5% no primeiro trimestre e continuará caindo. E as despesas da administração pública também devem cair dentro do contexto de ajuste fiscal.

A indústria caiu menos que o previsto no primeiro trimestre, não?

A indústria veio com queda de 0,3% em vez de cair 2,2% da nossa projeção. A surpresa veio da construção civil. Mas quando se olha o que está em volta, não parece que a construção civil vai ser o fator a sustentar a economia. Inclusive tem o esforço do governo reduzindo compulsório do setor imobiliário, então não tem como ser muito bom, é um setor que está precisando de ajuda. Tenho impressão inclusive de que esse dado vai ser revisto.

Que outros aspectos da divulgação do PIB o sr. destacaria?

Os grandes componentes já estão mostrando queda. Os serviços recuaram 0,7%, maior que o recuo de 0,2% que imaginávamos. O setor externo foi um pouco melhor, mas dentro esperado. Numa economia fraca, o setor externo tende a não ser tão fraco relativamente ao resto.

Olhando mais à frente, a economia pode se recuperar no segundo semestre?

Temos que avaliar se no terceiro trimestre o PIB deixará de ser negativo. Não me parece que vamos ter um alívio, mas talvez a economia deixe de cair como no segundo trimestre. Talvez o segundo trimestre venha a ser o pior. É diferente ter um terceiro trimestre bom ou um terceiro trimestre que não é tão ruim quanto o segundo. Talvez seja algo perto de zero, ou negativo em 0,1%, 0,2%.

Qual a sua projeção do PIB para o ano? E para 2016?

Estamos com queda de 1,5% para este ano. Hoje achamos que está bem calibrada. Estávamos com a tendência de revisar para pior, mas com o primeiro trimestre um pouco melhor que o previsto, provavelmente vamos ficar em -1,5%, apesar de o segundo trimestre estar vindo um pouquinho pior do que o antecipado. Para 2016, crescimento de algo em torno de 0,5%, nosso número oficial é 0,7%.

Como a economia brasileira vai conseguir sair do poço?

A gente bate no fundo do poço e quica. Isso é uma piada, por favor. Tem outros que dizem que a gente atinge o fundo e começa a cavar. Agora, falando a sério, a retomada tem que vir através da confiança. Poderia também ser o setor externo puxando, mas numa economia como a brasileira, em que ele é pequeno, não consegue puxar muito. Então tem que ser a confiança mesmo.

E como viria essa volta da confiança?

Tem que ser uma percepção de que o pior passou, que já ajustamos o suficiente. Isso significa ter a percepção de que os ajustes já feitos deram certo, de que é hora de ir adiante. O mercado financeiro começa a mostrar preços melhores, a bolsa sobe, o risco Brasil cai, o câmbio fica estável mais tempo. A sensação de condições financeiras melhores, com o governo saindo do pior do ajuste, dá uma certa confiança. Aí, o investimento para de cair. Já estamos na sétima queda trimestral seguida da formação bruta de capital. Então seria a percepção de que o investimento já retraiu o suficiente, que o pior já passou, que o custo do ajuste foi pago. Se o investimento para de cair, como a base é muito baixa, logo começa a ter números positivos, e aí, no próximo ano, já pode haver números um pouco melhores.

Como o sr. avalia o momento atual em comparação com esse cenário que o sr. descreveu de começarmos a sair do fundo do poço?

Os ajustes estão muito na linha do que eu imaginava. Eles tentam consertar vários anos de uma vez só, o que sempre é difícil. Estamos pagando hoje o custo do passado, não do presente. Estamos no caminho certo, mas é difícil: o ajuste não acontece nem de uma forma suave nem de uma forma completa. As medidas vão para o Congresso, não passa tudo, mas passa alguma coisa. Mexe em outras áreas, como a parafiscal, libera o câmbio e o setor externo começa a melhorar devagar, descongela preços. Mas a melhora virá devagar.

E o risco de que dificuldades políticas ou divergências na equipe econômica descarrilem o ajuste?

Acho que teremos suficiente apoio para que o ajuste continue. Não perfeito. Não a meta de 1,2% do PIB de superávit primário este ano, mas 0,8%, 0,7%. Mas um ajuste suficiente. Mas acho que não tem apoio para ir além disso. Não que o governo não queira, que o ministro da Fazenda não queira reformas, mudanças que mexam com a produtividade e façam o Brasil crescer. Mas estão usando todo o apoio que conseguem para consertar o passado, não tem força para ir além. Tomara que eu esteja errado em relação às reformas, e tomara que eu esteja certo em relação ao ajuste, que tenhamos capital político suficiente pelo menos isto. Estou no meio do caminho: otimista com o ajuste e pessimista com as reformas.

A recessão afetará mais o mercado de trabalho?

Mesmo que o PIB se estabilize do terceiro trimestre em diante, o desemprego vai continuar subindo. O nível de produção, vendas, estoques não permite mais ter o mesmo nível de emprego de antes. Por enquanto, pelo menos – se recuperarmos a produtividade e voltarmos a crescer, pode ser. E a renda vai cair. A inflação de 8,5% acaba reduzindo a renda real, mesmo que o salário não caia.

O sr. teria alguma recomendação final em termos de política econômica?

O governo deve perseverar nos ajustes e tentar avançar, porque será a única forma de a gente sair dessa situação de crescimento negativo. As concessões de infraestrutura são essenciais nesse processo também, porque de um lado ajudam na produtividade e do outro dão um pouquinho de demanda também. (Fernando Dantas – fernando.dantas@estadao.com)

Esta entrevista foi publicada pela AE-News/Broadcast em 29/5/15, sexta-feira.

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