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Impeachment no radar do mercado

Acusações de Moro a Bolsonaro assustam o mercado e já se começa a falar na destituição do presidente. Mas e a economia? Enquanto alguns veem risco de desestabilização grave na disparada do dólar, outros pensam que o Banco Central deve manter os protocolos do sistema de metas.

Fernando Dantas

24 de abril de 2020 | 20h19

Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX no Rio, surpreendeu-se com a gravidade do que Sergio Moro relatou das suas conversas com Bolsonaro na entrevista de demissão do primeiro esta manhã.

Ressalvando que não é uma expert em assuntos legais, a gestora viu  elementos de falsidade ideológica na  “assinatura” de Moro na exoneração de Maurício Valeixo da diretoria-geral da Polícia Federal, sendo que o ministro demissionário disse nem ter sido comunicado da decisão.

O pior, entretanto, foi a declaração do presidente (segundo Moro) de que gostaria de ter acesso direto ao diretor-geral da PF e a superintendentes, sendo que uma das motivações seriam questões ligadas ao Supremo – há em curso a investigação de fake news contra o STF atribuídas a Carlos Bolsonaro, e a autorização do Supremo para abertura de inquérito sobre a manifestação pró-golpe à qual o presidente compareceu no último domingo. Para a economista, a vontade do presidente de ter acesso direto à PF parece configurar uma tentativa de obstrução de justiça.

Solange lembra que o ministro Celso de Mello, do Supremo, acaba de pedir informações a Rodrigo Maia, presidente da Câmara, sobre análise de pedido de impeachment de Bolsonaro. E isto aconteceu antes da entrevista-bomba de Moro hoje.

O analista político Ricardo Ribeiro, da consultoria MCM, ainda acha prematuro ver um cenário de impeachment como muito provável, mas vê Bolsonaro numa corda bamba, sem condição de revidar para cima de Moro.

A última saída do presidente, para Ribeiro, seria dizer que foi um mal-entendido, que não houve da sua parte intenção de interferir politicamente na PF. Nesse sentido, nomear um nome da preferência de Moro seria uma “prova” de que não há intenção de fazer qualquer obstrução de Justiça. Não parece do temperamento de Bolsonaro uma alternativa como essa.

Como Solange e Ribeiro apontam, há total desestruturação do governo Bolsonaro. Para o analista político, na “melhor das hipóteses para o presidente”, ele sobreviverá com um governo muito diferente. A sua aproximação com o Centrão faz sentido, porque seria a forma de conquistar pelo menos 1/3 da Casas do Congresso e evitar o impeachment.

Isso implica, porém, mudar a natureza do governo: de uma gestão liberal e sem contaminações da “velha política”, Bolsonaro passará para um governo populista e cuja única base de apoio são as mais longas folhas corridas do Parlamento.

Como observa o cientista político Octavio Amorim, há uma curiosa mistura de paralelismo e oposição entre Collor nos seus anos finais e Bolsonaro agora. Ambos tentaram se aproximar do baixo clero, mas enquanto Collor, em compensação, trouxe para o governo figuras respeitadas do establishment (Marcílio Marques Moreira, Celso Lafer, Celio Borja), Bolsonaro faz o contrário – expulsa do governo colaboradores populares e vistos com bons olhos pelas elites, como Mandetta (a partir do bom trabalho na pandemia) e Moro.

Muita gente imagina que o próximo da fila para sair seja Paulo Guedes. Como nota Solange, governar tendo o Centrão como única base de apoio parece incompatível com a agenda de ajuste fiscal estrutural do atual ministro da Economia.

“O Centrão não vai para o governo para segurar pauta-bomba, o Centrão cria pautas-bomba para negociar verbas e cargos”, analisa a economista.

E da política chega-se à economia, em que parece haver duas correntes (tema já tratado na coluna de quarta-feira, 22/4).

A economista-chefe da ARX está no grupo extremamente preocupado com a disparada do dólar em um ambiente de descontrole fiscal crescente e aparente colapso da governabilidade.

Ela já chega a mencionar o risco de “dominância fiscal”, em que o BC perde qualquer capacidade de ancorar a economia com seu arsenal de ferramentas. Por enquanto, a economista alinha-se entre os que não veem com bons olhos novas quedas da Selic, que reduzem a atratividade dos fluxos de entrada de capital e são um combustível para a desvalorização.

Na outra ponta, Samuel Pessoa, pesquisador do Ibre/FGV e sócio-diretor do Julius Baer Family Office, nota que, segundo duas estimativas, 3/5 da desvalorização de 30% do real entre janeiro de 2018 e 17 de abril deste ano vêm da queda dos preços de commodities.

Para Pessoa, “nada indica que o regime de metas não esteja funcionando, e a ação do BC tem que seguir os princípios de livro-texto da condução de política monetária”.

Assim, se houver efeitos secundários da desvalorização sobre a inflação, o BC deve agir, mas não tem sido este o caso, muito pelo contrário.

“Adicionalmente, a posição de credor líquido em dólar do setor público serve como amortecedor de qualquer aumento da percepção de risco”, acrescenta o economista.

E, finalmente, apesar da intensa desvalorização desde o início de janeiro, ele aponta que não houve até agora sinais de grandes problemas com a dívida em dólar do setor privado, o que é muito diferente do ocorrido em episódios anteriores.

Para Pessôa, inclusive, a perspectiva de um impeachment de Bolsonaro, que corresse de forma razoavelmente célere, poderia ser positiva para os ativos brasileiros.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

 Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 34/4/2020, sexta-feira.