Implicações de Lula favorito

Há certo alinhamento de interesses entre equipe econômica “neoliberal” e grupo político de esquerda que desponta como grande favorito para substituir o atual governo.

Fernando Dantas

10 de fevereiro de 2022 | 10h35

A pesquisa Genial-Quaest de fevereiro chama a atenção por não chamar a atenção. Impressiona a estabilidade do quadro eleitoral. Bolsonaro permanece mal avaliado o suficiente para perder o favoritismo natural de quem tem a caneta presidencial na mão, mas com um resquício de apoio amplo o suficiente para derrotar, de longe, qualquer outro candidato a disputar o eventual segundo turno com Lula.

Lula continua como franco favorito, com intenções de voto que sugerem, inclusive, real possibilidade de vitória no primeiro turno.

Os candidatos da chamada “terceira via” não decolam. João Doria nem ao menos ligou as turbinas. Ciro Gomes já taxia sem perspectiva de tirar a aeronave do solo há muito tempo, mas havia esperança de que a “novidade” Sergio Moro tivesse mais sucesso. Ledo engano, ao menos por enquanto. O ex-juiz tampouco consegue alçar voo.

É verdade que a campanha oficial ainda está bem longe de começar. Mas essa ressalva também era feita em 2018, por exemplo, pela campanha de Geraldo Alckmin, que esperava pelo momento mágico em que o latifúndio tucano no horário eleitoral gratuito de TV e rádio produziria a grande reviravolta – o que não aconteceu.

Adicionalmente, a polarização política dos últimos anos, acirrada por Bolsonaro, um presidente que nunca saiu do palanque, faz com que a sociedade já viva certo clima de campanha.

Segundo a pesquisa Genial-Quaest, 58% dos eleitores dizem que seu voto é definitivo, isto é, que a intenção de voto revelada se manterá com certeza até a eleição. O mais significativo, porém, é que essa proporção de “votos definitivos” sobe para 74% no caso dos que dizem que irão votar em Lula, e para 65% entre os eleitores de Bolsonaro.

Já no caso de Ciro, Dória e Moro, a proporção de votos definitivos é de, respectivamente, 38%, 27% e 30%.

Tudo o que foi comentado até aqui na coluna não é para dizer que a eleição está praticamente decidida e que Lula com enorme probabilidade será o próximo presidente. Na verdade, surpresas e reviravoltas podem, sim, acontecer, nos meses em que a campanha não só se torna oficial, mas também atinge as suas máximas temperaturas.

A questão é que o prognóstico possível de ser feito hoje, com as informações acumuladas até o presente, aponta um favoritismo muito sólido do candidato petista. Em outras palavras, o que dá para enxergar no momento é que Lula tem grande chance de ganhar, e os outros candidatos, de perder – com Bolsonaro sendo um azarão bem mais perigoso que os demais.

Essa percepção, por sua vez, tende a criar uma dinâmica político-econômica neste ano eleitoral muito diferente das que a sociedade brasileira se acostumou a testemunhar nas eleições do passado.

Se tiverem algum juízo, Lula e o PT já devem estar preocupados com o estado do País que possivelmente herdarão para governar em 2023. Ao contrário dos adversários tucanos do PT de outrora, Bolsonaro não tem nenhum projeto de País para além de meia dúzia de bandeiras reacionárias disparatadas. Quem não tem projeto tampouco tem zelo.

Esse fato e a flagrante irresponsabilidade do presidente se unem para que um festival de medidas eleitoreiras extremamente danosas, especialmente na área fiscal, possa se acumular durante o ano eleitoral: sabotagem do teto, deformação do Bolsa-Família, aumento de 33% no piso dos professores (comentado ontem nesta coluna) e, coroando o surto populista, a “PEC Kamikaze”, da desoneração dos combustíveis e do “bolsa caminhoneiro, ao custo de R$ 100 bilhões.

O fato de vários desses projetos virem de membros do Centrão, e não diretamente do Executivo, não é dos mais relevantes. Mas é preciso apontar que existem, sim, alguns freios.

A equipe econômica comandada por Paulo Guedes está desmoralizada e perde quase todas as batalhas, mas, por outro lado, Bolsonaro nunca partiu para uma estratégia “bolivariana” de destruir integralmente o arcabouço macroeconômico. Bem ou mal, há um Banco Central autônomo tentando controlar a inflação, e não há um cavalo de Troia como Arno Augustin no
Tesouro.

Dessa forma, cria-se uma situação inusitada – e oposta à ocorrida em 2002 antes da “Carta ao Povo Brasileiro” –, pela qual há certo alinhamento de interesses entre uma equipe econômica “neoliberal” e o grupo político de esquerda que desponta como grande favorito para substituir o atual governo.

É verdade que, especialmente para os parlamentares do PT e outros partidos de esquerda, é extremamente desconfortável dizer não para “bondades” eleitoreiras com que Bolsonaro quer brindar diversas clientelas.

Ainda assim, nem Guedes, por uma questão reputacional, nem Lula e o PT, porque podem ter que gerir o desastre, gostariam que Bolsonaro e o Centrão botassem fogo no circo numa tentativa desesperada e provavelmente inútil de reeleger o atual presidente.

Curiosamente, essa é uma eleição em que bombeiros de diferentes tendências podem vir a ter um papel de destaque.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)  

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 9/2/2022, quarta-feira.