Impossível de defender

Bolsonaro, o promotor do caos, não tem como ser garantia de estabilidade contra o que quer que seja. Artigo de Ciro Nogueira em defesa do governo atual (e ataque ao PT) falha porque não tem como elogiar o que é quase propositalmente ruim.

Fernando Dantas

17 de janeiro de 2022 | 19h33

É verdade que, nos principais veículos de comunicação do Brasil, não se vê quase nada a favor de Jair Bolsonaro. Mas não se trata de preconceito contra o conservadorismo, nem mesmo de “cordão sanitário” em torno da extrema-direita.

Defender Bolsonaro é constrangedor mesmo para quem quer fazê-lo, por características do seu governo que são literalmente indefensáveis.

Por que sabotar a defesa do meio ambiente? Por que nomear um negacionista do racismo para a Fundação Palmares? Onde se foi catar um secretário da Cultura que divulga um vídeo expressamente inspirado em Joseph Goebbels, o infame marqueteiro de Hitler?

Porém, com as eleições se aproximando, aliados do presidente se veem forçados a encarar a indigesta tarefa de fazer o elogio de um governo que faz questão de encarnar o papel de vilão irredimível em diversos temas, sabe-se lá por quê.

Uma tentativa quase inaugural no ciclo eleitoral que se inicia foi a do senador Ciro Nogueira (PP-PI) , ministro-chefe da Casa Civil de Bolsonaro, em artigo no jornal O Globo publicado ontem.

Em princípio, não há nada de anormal – e nem mesmo ilegítimo – em um participante de um governo ruim e impopular tentar defendê-lo. É algo que acontece em qualquer democracia do mundo.

Mas o canhestro  artigo de Nogueira soa tão disparatado porque, justamente, nem uma grossa camada de verniz é capaz de tornar menos repulsivo algo que foi realizado com o deliberado intuito de ser feio, como é o caso de grande parte das ações de governo de Bolsonaro.

Nogueira começa criticando o clima de “já ganhou” do PT e diz que a vitória de Lula seria uma imediata guinada “para a Venezuela, Argentina ou Bolívia”.

A frase peca por falta de sentido, porque Venezuela, Argentina e Bolívia são três países com desempenho recente muito diferente. O caso boliviano pode até ser considerado razoável em termos econômicos, dentro da realidade deprimente da América Latina.

Mas que se tome logo o pior dos três, a Venezuela, na qual Chávez e agora Maduro produziram um desastre humanitário que geralmente só ocorre em guerras – além de acabarem com a democracia.

Esta coluna é insuspeita de “passar pano” para a nova matriz econômica dos governos petistas. Junto com o fim do boom de commodities, essa política econômica tremendamente equivocada foi responsável por uma das piores recessões da história brasileira – 2014-16 – e por dilapidar boa parte de um penoso acúmulo de avanços fiscais e no arcabouço econômico em geral no período de 1998 a 2005.

Ainda assim, nada remotamente próximo à alucinação do bolivarianismo foi cometido no Brasil. Em termos políticos, alguns se assustam com ameaças (nunca cumpridas, inclusive porque dependem do Congresso) de regulação da mídia pelo PT, assim como pela defesa de ditaduras na América Latina.

No poder, entretanto, o PT jamais atacou as instituições democráticas da forma como fez Bolsonaro (que chegou inclusive a elogiar Chávez num passado distante).

Nogueira em seguida critica a intenção do PT de rever a reforma trabalhista, um bom ponto, assim como faz sentido também a afirmação do ministro de que atribuir toda a calamitosa situação econômica exclusivamente a Bolsonaro, sem levar em conta o efeito da pandemia, é incorreto.

No caso da pandemia, entretanto, foi o próprio Bolsonaro que insistiu o tempo todo que não era um problema para se levar a sério, que promoveu falsos tratamentos, atacou governadores e prefeitos impedindo uma ação nacional mais bem coordenada, trocou sem parar de ministro da Saúde e sabotou sistematicamente iniciativas – quarentenas de início, vacinação em seguida – que poderiam tornar menos terrível o quadro sanitário e econômico.

Bolsonaro piorou tanto a saúde quanto a economia durante a pandemia, e, portanto, tem muito menos direito à desculpa “foi a Covid-19” para explicar o seu fracasso como presidente do que a média dos governos mundo afora.

Na sequência, Nogueira ataca o estatismo do PT sem mencionar, nem ao menos justificar, o acachapante fiasco da agenda liberal e privatista de Paulo Guedes.

Escreve que o auxílio emergencial foi o maior programa assistencial da história – 13 anos de Bolsa Família em um! – sem aumentar a dívida pública. Mas não conta que foi a alta da inflação que fez boa parte dessa mágica, nem que a percepção da solidez fiscal brasileira piorou drasticamente desde 2019.

Um sofisma liga-se a outro no artigo do senador e ministro. Ele enaltece o governante que levou a taxa de juros ao seu nível mais baixo na história, ocultando que isso foi uma semente plantada no governo Temer com a correção de rumos da política fiscal e monetária. E omite que agora a taxa básica de juros já saiu de 2% para 9,25% (e vai subir mais), por causa da disparada da inflação.

Corretamente, Nogueira menciona a boa gestão regulatória do BC diante do surgimento das fintechs e bancos digitais e a criação do Pix. Trata-se de uma agenda regulatória do BC. também herdada de governos passados, à qual foi dada continuidade, com especial brilho criativo no caso do Pix.

Já a parte de “duplicar o valor do antigo Bolsa Família (…) sem pedaladas fiscais” é quase humorística, diante do fato de que o reforço oportunista e eleitoreiro do programa se deu à custa de desmoralizar por completo a âncora do teto de gastos.

O artigo segue adiante com uma retórica surrada de que a continuação do governo Bolsonaro seria um dique de racionalidade e bom senso contra um alegado projeto destrutivo do PT.

Existem de fato grandes riscos econômicos – para se ater à principal especialidade da coluna – num novo governo de Lula, a se crer em boa parte da cacofonia de sinais que economistas e políticos ligados ao ex-presidente vêm emitindo.

Mas é patético defender a ideia de que Bolsonaro represente a defesa da estabilidade contra o que quer que seja. O atual presidente é antes de tudo um promotor do caos. E ao desmoralizar completamente as bandeiras conservadora e liberal, abriu caminho para o populismo de esquerda voltar ao poder.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 17/1/2022, segunda-feira.