Impulso fiscal defasado

Estudo de economistas do FMI joga luz em como pacotes fiscais gigantescos de 2020 acabaram tendo muito mais efeito a partir de 2021.

Fernando Dantas

27 de julho de 2022 | 11h10

Recém-divulgado trabalho do FMI ajuda a entender por que os gigantescos pacotes fiscais lançados em 2020, primeiro ano da pandemia na maior parte do mundo, tiveram mais efeito em 2021 do que quando foram ativados.

O estudo, de julho de 2022, chama-se “Multiplicadores Fiscais durante Pandemias” (traduzido do inglês), e tem como autores Tidiane Kinda, Andras Lengyel e Kaustubh Chahande.

O trabalho analisa dados fiscais de 91 países no período de 1980 a 2020 ao longo das crises sanitárias do Ebola, SARS, H1N1, MERS-Cov e Covid-19.

Os autores destacam três canais de transmissão típicos de crise sanitária que interferem na efetividade da política fiscal. O primeiro é o aumento de incerteza, que pode mitigar efeitos fiscais expansionistas. O segundo são os gargalos de oferta pela redução das interações pessoais, e o terceiro é a supressão de demanda pelo aumento do desemprego e do risco de redução da renda.

O paper encontra justamente que esses canais reduzem o multiplicador fiscal (a medida de eficácia dos estímulos fiscais) imediato, mas aumentam os multiplicadores de um e dois anos após o estímulo, que se tornam duas vezes mais fortes no contexto de crise sanitária do que em tempos normais.

Segundo os autores, “esses resultados sugerem que o apoio fiscal em grande escala aplicado no início da pandemia da Covid-19 pode ter impactos defasados na atividade econômica maiores do que os habituais, o que tem que ser levado em conta quando se calibram as políticas econômicas”.

O economista Bráulio Borges, da consultoria LCA e do FGV-IBRE, nota que o trabalho dos economistas do FMI chama a atenção para uma defasagem maior do multiplicador fiscal por conta de fatores como as restrições de mobilidade da pandemia em 2020 e 2021.

Borges aponta que vários trabalhos recentes do FMI efetivamente indicaram que o multiplicador fiscal dos países em 2020 foi muito baixo.

Segundo o economista, “a montanha de dinheiro que os governos colocaram em termos de aumento de gastos, cortes de impostos e diferimento de tributos teve um impacto sobre o PIB de 2020 muito menor que se imaginava”.

Essa fato, por sua vez, continua Borges, pode passar a impressão de que as políticas fiscais durante a pandemia teriam se caracterizado por uma produtividade muito baixa.

“Só que esse dinheiro não sumiu”, aponta o economista. Na verdade, os recursos viraram excesso de poupança do setor privado – de famílias principalmente, mas até de empresas também –, efeito parcialmente causado pela impossibilidade de gastar, principalmente em serviços que foram fechados durante a fase mais intensa de quarentenas.

Já em 2021, essa poupança começou a ser desmobilizada, e a economia mundial surpreendeu, o que teve como uma das causas, nas palavras de Borges, “o efeito mais diluído no tempo do choque fiscal expansionista de 2020”.

Ele nota que em 2021, inclusive, houve contração fiscal na maioria dos países, os Estados Unidos sendo uma exceção por conta do novo pacote de gastos de Joe Biden.

No Brasil, segundo o saldo primário cíclico calculado por Borges, saiu-se de impulso fiscal positivo de 8 pontos porcentuais (pp) do PIB em 2020 para impulso negativo de 6pp em 2021. Ainda assim, o PIB brasileiro cresceu 4,6% no ano passado. O economista lembra que o resultado poderia ter sido ainda melhor se não fosse pela crise hídrica.

O pesquisador do IBRE destaca que essa discussão de impulso fiscal é de curto prazo. Ele nota que outra dimensão desse tipo de política, objeto de outro estudo recém-lançado, dos economistas Juan Antolin-Diaz e Paolo Surico, da London Business School, são os efeitos de longo prazo de impulsos fiscais. Nesse caso, detecta-se alta persistente de inovação e produtividade no médio prazo ligada a gastos do governo em pesquisa e desenvolvimento.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 26/7/2022, terça-feira.