Incerteza volta a aumentar

IIE-Br, o "índice de incerteza" da FGV, vem ganhando atenção crescente dos mercados. Ele caiu em julho, com a reforma da Previdência, e voltou a subir em agosto, com a pior do setor externo, segundo Aloisio Sales, gestor do índice.

Fernando Dantas

29 de agosto de 2019 | 12h04

O Indicador de Incerteza da Economia (IIE-Br) da FGV voltou a subir em agosto, dando um salto de 5,8 pontos, para 114,2. Em julho, o indicador havia registrado um grande recuo, de 10,7 pontos, para o nível de 108,4 – um movimento motivado em boa parte pela surpreendente robustez da maioria que aprovou a reforma da Previdência em primeiro turno na Câmara.

Mas a redução da incerteza não se sustentou, o que é uma notícia ruim para a economia brasileira.

O IIE-Br vem ganhando mais atenção por parte de analistas econômicos. O economista Fernando Rocha, da gestora JGP, por exemplo, vê uma correlação relevante entre o indicador de incerteza e o crescimento do PIB 12 meses à frente.

Aloisio Campelo, superintendente de estatísticas públicas do FGV/Ibre, e responsável pela gestão do IIE-Br, nota que a incerteza afeta particularmente o investimento, justamente um dos patinhos feios da lentíssima retomada da economia brasileira.

Ele lembra a diferença entre risco e incerteza. O primeiro dá para medir, a segunda caracteriza justamente a situação em que é muito difícil ou até impossível medir os riscos. Com o risco devidamente precificado, dá para investir, mesmo em cenários adversos. Na escuridão fica muito mais complicado.

O IIE-Br foi lançado há poucos anos, mas a série foi construída a partir de 2000. Uma parcela de 80% do índice é calculada pela incidência de termos que remetem à incerteza (como a própria palavra, crise, instabilidade etc.) numa grande massa de textos de mídia impressa e eletrônica em português, relacionados principalmente à economia. A varredura é realizada com ferramentas computacionais. A técnica e índices de incerteza nela baseados disseminaram-se internacionalmente desde o início desta década, a partir dos Estados Unidos.

Os 20% restantes do IIE-Br são calculados com base na dispersão de projeções de indicadores econômicos (quanto maior a dispersão, maior a incerteza).

Segundo Campelo, o aumento do IIE-Br em agosto se deveu inteiramente ao componente de mídia. No componente de projeções, na verdade, a incerteza recuou.

Segundo o economista, a piora da incerteza de julho para agosto está fundamentalmente ligada a notícias ruins no cenário internacional (que podem afetar a economia brasileira), como o temor de desaceleração e até recessão global, e a guerra comercial entre Estados Unidos e China.

A varredura do noticiário para a confecção do IIE-Br de agosto se deu entre os dias 26 de julho e 24 de agosto. Como a atual crise ambiental, da qual o Brasil é protagonista, começou a se tornar mais aguda a partir do dia 20 de agosto, Sales explica que o impacto potencial no componente de mídia do indicador de agosto é limitado.

Nos últimos dias, ele notou uma reação do componente de mídia à crise sobre a Amazônia, mas modesta em comparação com os impactos do noticiário econômico internacional no IIE-Br ao longo de agosto.

O nível neutro da série histórica do IIE-Br é de 100, explica Sales, e o indicador encontra-se em nível muito elevado desde julho de 2015. Durante quase todo esse período, esteve acima de 110, o que é mais de um desvio padrão acima da média.

Apenas entre setembro de 2017 e março de 2018 a incerteza arrefeceu um pouco, mas ainda assim se mantendo entre 105 e 110, acima da média histórica.

Sales interpreta esse interlúdio relativo como causado por uma perspectiva um pouco melhor de retomada econômica naquele período, mesmo se considerando os efeitos do “Joesley day” em maio de 2017.

A partir do segundo trimestre de 2018, sobrevieram vários choques que jogaram o IIE-Br para níveis muito elevados novamente: recessão argentina (afetando setor automotivo no Brasil), greve dos caminhoneiros e estresse eleitoral nos mercados.

Com o favoritismo e posterior vitória de Bolsonaro na eleição presidencial, o índice caiu para perto de 110 e lá ficou até abril deste ano, quando começaram a surgir fortes incertezas sobre a capacidade de Bolsonaro de passar a reforma da Previdência e outros temas da agenda econômica, diante da sua errática e confusa atuação política.

O IIE-Br subiu até quase 120 em maio e junho, e caiu fortemente em julho, com a surpresa positiva da reforma da Previdência na Câmara.

Agora, porém, o cenário internacional está atrapalhando e Bolsonaro não está fazendo nada para ajudar. O que não augura bem para a retomada da economia (e da popularidade do presidente) a partir deste segundo semestre.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 28/8/19, quarta-feira.