Incertezas na China

Ômicron e reticência de bancos em emprestar a empresas imobiliárias são possíveis freios da locomotiva chinesa este ano.

Fernando Dantas

13 de janeiro de 2022 | 10h44

Num ano em que a economia global ainda vive muitas incertezas ligadas ao legado da pandemia, um capítulo à parte é a China e os seus riscos de desaceleração.

Em dólares, a China é a segunda maior economia do mundo. Em dólares “PPP”, que levam em conta o custo de vida de cada país, já é a primeira. Além disso, a China cresce muito mais que os Estados Unidos e outros países avançados. Dessa forma, é responsável pela maior fatia do crescimento do PIB global.

Como é bem sabido, o crescimento chinês vem desacelerando em relação aos níveis de até dois dígitos que prevaleceram no período de 1980 a 2010. Esse fato é congruente com a transição de modelo econômico, daquele com base em exportação e investimentos para uma economia mais movida por consumo doméstico e serviços.

É normal que se cresça mais rapidamente na transição da renda baixa para a média do que na da renda média para a alta, o desafio chinês atual. As estimativas do FMI indicam um crescimento médio da China um pouco acima de 5% para os próximos anos.

O número do FMI para 2022 é de 5,6%, mas parece alto de acordo com o atual consenso de mercado, em torno de 5%. A projeção mais recente do Banco Mundial é de 5,1%.

Hoje, como noticiado por André Marinho, do Broadcast, o Goldman Sachs cortou a previsão de crescimento chinês este ano de 4,8% para 4,3%.

A dificuldade agora é a variante ômicron do coronavírus. A China foi muito bem sucedida em sua estratégia de poupar vidas durante a pandemia com a política de “Covid zero”, isto é, de supressão quase total da circulação do vírus em seu território. O problema é que a transmissibilidade da ômicron é muito maior do que a das outras variantes, e tentar contê-la implica restrições à circulação com potencial de frear a atividade econômica.

As dores de cabeça chinesas não param aí. Como também noticiado por Marinho, da Broadcast, a partir de relatório do ING, os bancos na China relutam em emprestar, por causa de temores quanto à solvência das empresas, especialmente do setor imobiliário.

O economista Livio Ribeiro, sócio da consultoria BRCG, pesquisador associado do Ibre-FGV e especialista em China, considera a nova projeção do Goldman Sachs exagerada (para baixo). A previsão do pesquisador para o crescimento da China este ano é de 4,9%, com leve viés de alta por causa das sinalizações do governo de que vai apoiar a atividade.

“Acho que eles [Goldman] estão superestimando o efeito da ômicron, que tem alguma relevância no curto prazo, e nem tão dramático assim, mas não parece ser algo para todo o resto do ano”, diz o pesquisador.

De fato, pelas experiências recentes de países como África do Sul e Reino Unido, as evidências são de que o padrão epidêmico da ômicron é de uma disseminação muito rápida e mais ampla (do que a de outras variantes), mas com um surto medido em semanas e não meses. A ressalva é de que tudo na Covid tende a ser incerto e surpreendente.

Em relação à resistência dos bancos a emprestar para empresas imobiliárias, Ribeiro nota que o estímulo e a “sugestão” do governo aos bancos chineses são de manter o fluxo de crédito para fornecedores e compradores ligados aos mercado residencial – e não para as grandes empresas.

Ele acrescenta que há ainda o apoio governamental aos bancos regionais para que assumam obras de incorporadoras quebradas.

“A política foi desenhada para quebrar a perna dessas incorporadoras mais alavancadas e ela está tendo efeito”, aponta o economista.

Para ele, o problema real para a economia chinesa é o risco de “perda de confiança em tijolo”, em relação ao qual ele vê uma situação de “copo meio cheio ou copo meio vazio”: as vendas não vão voltar ao nível pré-imposição das “três linhas vermelhas”, em outubro de 2020, mas também não se evoluiu para um colapso imobiliário, que se chegou a temer.

As “três linhas vermelhas”, que vieram antes do colapso da incorporadora Evergrande, se referem a reduzir a alavancagem, melhorar as garantias e aumentar a liquidez das empresas desse mercado.

De qualquer forma, no caso da China, o que não falta são variações – mais ou menos otimistas/pessimistas – nos prognósticos de bons analistas. Assim, é muito provável que o risco de uma desaceleração maior da locomotiva chinesa permaneça como uma peça importante do quebra-cabeças da economia global em 2022.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 12/1/2022, quarta-feira.