Incompetência incomensurável

Lambança de Bolsonaro em mais uma (prevista) troca de ministro da Saúde durante a pandemia indica que ponto mais vulnerável do presidente não é sua perversidade, cuja percepção é mais aguda para a elite ilustrada do que para vastos segmentos da população, mas sim a sua incrível incapacidade de governar. Todos entendem que time que troca de técnico seguidas vezes, como a Saúde de Bolsonaro na pandemia, não está funcionando bem.

Fernando Dantas

15 de março de 2021 | 19h29

É impressionante como Jair Bolsonaro consegue manter a aprovação de aproximadamente 30% do eleitorado com demonstrações tão explícitas e bisonhas do amadorismo com que governa o País.

Diante da pior crise sanitária global em um século, o presidente aparentemente caminha para o seu quarto ministro da Saúde. Não há notícia de que nada nem remotamente parecido tenha ocorrido em outros países.

Evidentemente, trocas sucessivas de ministros são uma evidência gritante de que as coisas caminharam mal. No imaginário popular, time de futebol em má fase é aquele em que os técnicos não param.

Trocar Eduardo Pazuello agora, portanto, é um atestado de mau governo, amplamente confirmado pelos itens das recentes pesquisas de opinião que avaliam a condução do presidente na pandemia.

Agora, porém, até há sentido na troca. Pazuello foi desastroso na sua missão, como os parlamentares do Centrão devem estar martelando nos ouvidos do presidente.

Trata-se, portanto, de uma escolha de Sofia. Manter um auxiliar incompetente na saúde quando a pandemia está no seu auge no Brasil, com todas as consequências sanitárias, políticas e econômicas dessa escolha; ou passar mais um recibo de incompetência do presidente em selecionar auxiliares – e nomear um novo ministro ou ministra que supostamente possa mitigar o desastre.

Mas não era esse o caso quando Bolsonaro demitiu Luiz Henrique Mandetta, ministro da Saúde muito bem avaliado por sua resposta à pandemia no seu início, ou mesmo Nelson Teich, que não disse muito ao que veio, mas tinha forte respeito na comunidade médica.

Foram erros causados por puro capricho, teimosia e ignorância do presidente, tiros no pé sem qualquer explicação racional.

Mas Bolsonaro não se contenta em dar mostras públicas e estridentes do fracasso do seu governo no principal desafio do seu mandato. A própria forma como a possível substituição de Mandetta está sendo conduzida é mais um lembrete para o eleitorado de como este é um governo mambembe.

O presidente recebeu ontem no Planalto, como candidata a substituir Pazuello, a cardiologista Ludhmila Hajjar. O fato foi amplamente divulgado e a médica foi vista como com um pé no cargo. Em breve, porém, se descobriu que ela era a favor do isolamento social e contra a cloroquina, e que já havia criticado asperamente a condução de Bolsonaro na pandemia. A candidatura caiu (até segunda ordem, pelo menos).

Pazuello, por sua vez, teria dito que queria sair por motivo de saúde, depois negou e agora convocou uma coletiva para esta tarde. A confusão é tão grande que se especula sobre um novo nome de ministro(a) da Saúde sem se saber ao certo se o atual quer ou não quer sair, ou se o presidente o quer ou não “saído”.

Além do mais, é claro que escolher ou uma boa ministra ou um bom ministro da Saúde agora tem por pré-condição optar por alguém crítico à gestão do governo da pandemia.

Não é preciso nem entrar em considerações sobre a postura anticientífica de Bolsonaro para chegar a essa conclusão. Por definição, se o presidente está selecionando seu quarto ministro desde o início da pandemia, isso é um sinal claro de que a abordagem até agora funcionou mal. Não há nenhum sentido lógico em selecionar alguém que não seja contra o status quo.

Essa absurda incompetência de Bolsonaro na condução do dia a dia do governo, à qual Lula aludiu diversas vezes no seu recente discurso, é possivelmente a maior vulnerabilidade política e eleitoral do atual presidente.

Bolsonaro é o antípoda absoluto do etos da classe bem pensante do Brasil. Ele configura, item por item, detalhe por detalhe, tudo o que existe de mais abominável e repulsivo para a intelligentsia brasileira.

Entretanto, essa repelência quase magnética da figura presidencial pode ser uma armadilha quando se pensa em combatê-lo política e eleitoralmente. O fato é que ele obteve 55% dos votos válidos no segundo turno de 2018 e ainda mantém o prestígio junto a 30% ou pouco menos do eleitorado.

Por algum motivo, talvez difícil de decifrar na bolha mais letrada, a abjeção do que representa Bolsonaro é menos perceptível para grande parte do povo brasileiro.

Por exemplo, houve um justo escândalo quando recentemente o presidente e seu filho exibiram a carta de despedida de um suicida que tomou o ato extremo supostamente por problemas ligados ao lockdown.

É, sem dúvida, uma ação desprezível e abominável. Mas será que, para a grande parte da população que vive em áreas dominadas por crime, tráfico e milícias, e que está exposta pessoalmente à brutalidade homicida dos “tiranos locais” – o termo é do jornalista e pesquisador Bruno Paes Manso, autor de recente livro sobre as milícias no Rio –, se escandalizar com a leitura da carta de um suicida encontra espaço na lida quase hobbesiana da vida diária?

Por outro lado, a incompetência incomensurável de Bolsonaro no ato de governar é algo muito mais compreensível por todos os segmentos da sociedade brasileira. Qualquer pessoa, em qualquer grotão ou área de risco urbana, compreende o que significa um time que troca quatro vezes de técnico em menos de um ano.

Lula parece ter captado esse calcanhar de Aquiles de Bolsonaro. Outros líderes e forças políticas de oposição ao atual presidente fariam bem em também prestar atenção a esse flanco impossível de proteger.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 15/3/2021, segunda-feira.