Indústria ainda não vê luz no fim do túnel

Uma série de fatores ainda inibe a produção industrial brasileira, que não voltou ao nível pré-Copa nem ao nível pré-crise global.

Fernando Dantas

09 de novembro de 2014 | 19h19

A produção industrial de setembro, com queda de 0,2% ante agosto em termos dessazonalizados, indica que este é outro tema a acrescentar a longa lista de problemas econômicos da presidente Dilma Rousseff em seu segundo mandato.

Irineu de Carvalho Filho, economista do Itaú-Unibanco, vê o salto de 10,1% na produção de veículos ante agosto, na série dessazonalizada, como “anômalo”. Foi esta puxada da indústria automobilística que levou os bens duráveis a subirem 8% na mesma base de comparação. O problema, acrescenta Carvalho, “é que o desempenho dos automóveis, que já havia sido antecipado pelos dados da Anfavea, foi um fato isolado, não se irradiou”. Ele acha que há sinais, incluindo elevação de estoques, prenunciam que a recuperação recente dos veículos em setembro não deve se sustentar.

O economista do Itaú-Unibanco nota que a indústria ainda está num nível inferior ao de antes da Copa, assim como também está produzindo menos que em 2008. Não há sinais de recuperação no horizonte.

Entre os fatores que inibem o crescimento industrial a curto prazo, ele a desaceleração da massa salarial, a criação de emprego negativa ou perto de zero, os estoques elevados e o ritmo lento do crédito.

Para Sérgio Vale, economista da MB Associados, “a indústria continua patinando em função da situação geral da economia”. Ele acrescenta como fatores negativos o início de mais um ciclo de elevação da Selic, com a decisão do BC de levar a taxa básica a 11,25% na última reunião, e a desaceleração dos indicadores de confiança.

Vale considera que o setor externo não deve fornecer uma saída para a indústria brasileira, mesmo com o dólar a R$ 2,50. Ele vê algum sinal de recuperação nas vendas de bens de capital de baixo valor agregado para os Estados Unidos, mas nota que o mercado latino-americano, importante para as manufaturas brasileiras, é afetado pela recessão em países como Argentina e Venezuela.

Para Vinicius Botelho, economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio, “a possibilidade de recuperação da indústria é remota”.

Ele nota que tanto na indústria extrativa quanto na de transformação, o resultado de setembro revelou uma situação estacionária em relação ao quadro já desenhado.

No caso da extrativa, trata-se de um bom patamar, com crescimento de 9,4% ante setembro de 2013, e de 3,5% em 12 meses. Botelho explica que isto se deve basicamente à entrada de plataformas de petróleo da Petrobrás em operação, mas a queda internacional do preço das commodities não é positiva para o desempenho do setor extrativo daqui em diante.

Já a indústria da transformação está estabilizada num nível ruim, com queda de 3,3% em relação a setembro de 2013, e um recuou acumulado em 12 meses de 2,9%, que se aprofundou ante o mesmo indicador em agosto, de -2,2%. O mau desempenho da indústria reforça as expectativas de crescimento do PIB em torno de zero em 2014, e torna mais duvidosas as expectativas de que recuperação em 2015.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 4/11/14, terça-feira.

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