Indústria ainda sem luz no fim do túnel

Fernando Dantas

13 de março de 2014 | 17h34

A alta da produção industrial em janeiro, acima das projeções de mercado, representa um alívio mas não sinaliza que a indústria brasileira esteja saindo da estagnação que remonta a 2010. Na verdade, o crescimento em janeiro foi inferior à queda de dezembro no todo, e em todas as categorias de uso. Assim, a indústria recuou 3,7% em dezembro e cresceu 2,9% em janeiro. Para as diversas categorias de uso, os números de dezembro e janeiro são de, respectivamente, -12,2% e 10% (bens de capital), -4,2% e 1,2% (intermediários) e -3% e 2,3% (consumo).

Os dados da Anfavea de fevereiro (divulgados na terça-feira, 11/3) e do fluxo de veículos em estradas com pedágio sugerem que a produção industrial no mês passado pode ter crescido, mas tampouco são suficientes para caracterizar a luz no final do túnel.

“O crescimento forte dos eletrodomésticos, especialmente de TVs, por causa da Copa, não parece suficiente para compensar o desempenho fraco dos automóveis, que estão sendo prejudicados pela crise na Argentina e pela fim da redução do IPI”, diz Sérgio Vale, economista da MB Associados.

O consultor Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, notou em relatório que a média móvel de três meses da produção industrial continua negativa, em -0,5%, embora tenha melhorado em relação aos -1,2% de dezembro. Em termos de nível, a média móvel de três meses da produção industrial está 2,3% abaixo do mais recente pico, em junho de 2013, e é o pior resultado desde julho de 2012. Ainda mais preocupante, por essa medida a produção industrial está 4% abaixo do recorde histórico, em meados de 2010.

Vinicius Botelho, economista do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV) observa que a indústria extrativa, que ensaiou uma recuperação em meados do ano passado, caiu em janeiro (na comparação dessazonalizada com o mês anterior) pelo terceiro mês consecutivo. Comparando-se o trimestre de novembro a janeiro de 2013/2014 com igual período de 2012/2013, há queda em quase todas as categorias da indústria extrativa, incluindo petróleo e gás, com recuo de 4,3%.

“Se a produção de petróleo vai se recuperar, isto ainda não aconteceu”, disse Botelho, referindo-se à expectativa de que a Petrobrás consiga afinal, com as novas plataformas, superar a fase recente de produção decepcionante. Por enquanto, ele acrescenta, “a entrada em funcionamento das plataformas não tem sido suficiente para compensar a depleção da bacia de Campos”.

A estagnação da indústria tem sido um dos principais entraves a condicionar o baixo crescimento econômico do governo da presidente Dilma Rousseff. Para José Márcio Camargo, economista da gestora Opus e professor da PUC-Rio, há um problema básico de competitividade, associado aos elevados custos salariais e de infraestrutura.

“O empresário vê os salários crescendo a 9%, sabe que não vai conseguir repassar para os preços e desiste de investir”, ele diz.

Para muitos analistas, a recuperação do investimento no ano passado veio muito em cima das linhas agressivas do BNDES e da retomada do setor de caminhões, anteriormente prejudicado pela transição para motores menos poluentes. Há fortes dúvidas sobre a continuidade da retomada do investimento. Camargo acha que a crise do setor elétrico está gerando incertezas que podem reduzir ainda mais as compras de máquinas e equipamentos.

Vale, da MB Associados, considera que a desvalorização recente do câmbio, que poderia ajudar a indústria, é menos significativa do que pode parecer à primeira vista. Segundo seus números, a taxa real de câmbio subiu 15% (moedas dos principais parceiros comerciais do Brasil em relação ao real, que se depreciou) desde o início do governo Dilma, comparado com 75% entre 1997 e 2003, quando o Brasil logrou uma virada positiva em termos de competitividade externa. Ele lembra ainda que aquele período também teve o impulso do crescimento da demanda chinesa, com um impacto positivo sobre a indústria extrativa, especialmente minério de ferro.

Em termos conjunturais, Vale nota que o ano de 2014, além do problema da Argentina, está sujeito ao impacto de feriados e manifestações em junho e julho. Isto se soma a um desempenho menos brilhante da renda e do crédito e à alta dos juros. “Não tem sinais positivos para a indústria”, conclui o economista.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

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