Indústria continua a desapontar

Produção industrial de março veio no extremo pessimista das projeções, puxada pelo mau desempenho da indústria extrativa. Resultado influencia negativamente as projeções do PIB.

Fernando Dantas

07 de maio de 2019 | 10h17

A produção industrial (PIM-PF) de março foi mais um jato de água fria nas perspectivas da atual retomada econômica, que mal faz jus a este nome.

Houve queda em março de 1,3% comparado a fevereiro na série dessazonalizada, e recuo de 6,10% ante março de 2018. Os dois resultados coincidiram com o limite pior do intervalo de estimativas dos analistas consultados pelo Projeções Broadcast.

Roberto Padovani, economista-chefe da corretora Votorantim, vê um conjunto de fatores por detrás do mau resultado da PIM-PF em março. Ele nota que a inflação cheia relativamente mais alta em 2019, comparada com a de 2017 e 2018, prejudica a renda real, o que pode estar afetando a demanda doméstica da indústria.

Mas a demanda externa também sofreu no primeiro trimestre, pela desaceleração global, que afetou particularmente a China e a América do Sul (em especial a Argentina em crise). Um terceiro fator, para Padovani, é o prosseguimento do processo de desalavancagem das empresas brasileiras, ainda um rescaldo da grande recessão de 2014-2016 e da lentíssima recuperação em seguida.

O economista não está na ala mais pessimista do mercado, e considera que a reaceleração da China iniciada ainda no primeiro trimestre, que favorece a Europa e a América do Sul (ajuda a depauperada Argentina, por exemplo), pode melhorar a demanda externa – o que poderia mais para a frente no ano se somar a um choque de confiança positivo com a aprovação da reforma da Previdência.

Dessa forma, Padovani projeta crescimento do PIB de 1,7% em 2019, ainda que a previsão da corretora Votorantim para o primeiro trimestre (na comparação dessazonalizada com o trimestre anterior), que está em 0,1%, possa cair para zero ou ligeiramente menos depois da produção industrial de março.

Silvia Matos, que comanda a área de análise de conjuntura do Ibre/FGV, também diz que o resultado de março foi pior que o esperado, ainda que tenha sido puxado em parte por uma queda muito forte da indústria extrativa, que corresponde a apenas 11% da PIM-PF.

Silvia privilegia a análise trimestral, e assim destaca que a indústria caiu 2,2% no primeiro trimestre em relação ao mesmo período de 2018, com quedas da indústria extrativa e da transformação de, respectivamente, 7,5% e 1,4%, na mesma base de comparação.

A indústria extrativa recebeu o choque do desastre de Brumadinho, com seu efeito negativo sobre a produção de minério de ferro, além de um resultado fraco na extração de petróleo.

Mas a economista considerou preocupante também a queda da transformação, que se seguiu a um recuou de 1,9% no último trimestre de 2018, ante igual período de 2017.

Há, é claro, o efeito Argentina, especialmente sobre a exportação de automóveis – as exportações contabilizadas pela Anfavea mostram recuos nos últimos 11 meses até março.

A decepção na indústria de transformação, no entanto, vai além disso, na visão de Silvia. Ela observa que, no primeiro trimestre, os bens intermediários – que são 60% da indústria de transformação e, quase por definição, se espraiam por todos os segmentos – recuaram 2% (ante o mesmo trimestre de 2018), num sinal de fraqueza generalizada.

Já os bens de capital caíram mais de 4% no primeiro trimestre, depois de também se contraírem no trimestre anterior. “Não estamos cuidando muito do futuro”, lamenta-se a economista.

Os bens de consumo duráveis foram piores que os não duráveis – o que é compatível com o crédito travado –, mas estes últimos também recuaram. Esse conjunto de indicadores, na visão de Silvia, traz uma preocupação específica: “No último trimestre de 2018, a visão era mais de um efeito negativo das exportações, mas agora há sinais de que é um problema também de demanda doméstica”.

Há risco para baixo nas projeções do Ibre de crescimento do PIB de 0,4% no primeiro trimestre e de 1,8% no ano, mas a economista diz que ainda espera os resultados de março das pesquisas do comércio e dos serviços -que sairão na primeira metade deste mês – para calibrar melhor as projeções.

Ela nota que há uma dicotomia entre a indústria e os serviços, que são a maior parte do PIB e têm exibido desempenho melhor.

“Pela indústria o PIB parou”, aponta Silvia, mas ressalva que a projeção do Ibre da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) é de crescimento de 2% no primeiro trimestre, em relação ao mesmo trimestre de 2018, ainda que caia na “margem”, isto é, ante o último trimestre do ano passado, na série dessazonalizada.

Carlos Macedo, economista da gestora Canepa, no Rio, relata que sua instituição tem projeção do PIB em 2019 de algo em torno de 1%, bem pior, portanto, que a do Ibre e da Corretora Votorantim.

A projeção da Canepa do PIB no primeiro trimestre é de recuo de 0,1% (na comparação dessazonalizada ante o trimestre anterior). Segundo os cálculos de Macedo, se esse resultado se verificar, a economia brasileira teria que crescer pelo menos 0,6% em média nos três trimestres restantes (naquela mesma base de comparação), para que o PIB superasse 1% de alta em 2019.

O recuo dos juros futuros hoje (3/5, sexta-feira) (combinado com a valorização do real ante o dólar), na visão do economista, pode ter sido influenciado pela desapontamento da produção industrial de março (que não ajuda a preencher o hiato do produto e, portanto, em tese poderia apontar para novos cortes de juros básicos), mas foi puxado também pela divulgação dos indicadores do mercado de trabalho norte-americano. A combinação de geração forte de emprego sem aceleração de salários é positiva para ativos de risco, o que afeta favoravelmente os mercados emergentes.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 3/5/19, sexta-feira.