Indústria da transformação reage

Transformação cresce bem no segundo trimestre, mas divulgação da produção industrial de junho decepciona em relação à indústria extrativa e à construção. Ainda assim, Silvia Matos, economista-chefe do Ibre, vê algum sinal de ânimo para o PIB.

Fernando Dantas

01 de agosto de 2019 | 19h04

A produção industrial de junho (PIM-PF), divulgada pelo IBGE em 1/8, quinta-feira, veio dentro do intervalo de projeções, com o recuo de 0,6% ante maio, na série dessazonalizada, pior do que a mediana das projeções de queda de 0,35%.

Um aspecto positivo, no entanto, segundo Silvia Matos, coordenadora de pesquisa macroeconômica de conjuntura no Ibre/FGV, é que “o resultado da PIM de transformação confirmou o nosso cenário de recuperação da indústria de transformação no segundo trimestre”.

No início de junho, a sua previsão de crescimento da indústria de transformação no segundo trimestre era de 1,3%, comparado ao mesmo período de 2018 (interanual), e de 0,4%, na comparação dessazonalizada com o primeiro trimestre.

Mas a situação melhorou e o crescimento efetivo da produção industrial no segundo trimestre acabou sendo de 1,8% (interanual) e 0,6% (dessazonalizado). O Ibre já havia revisado suas projeções e a divulgação de hoje veio em linha com as estimativas.

Mas nem tudo foram boas notícias, já que a indústria extrativa e a construção decepcionaram.

“A extrativa veio bem pior que o esperado e tivemos que rever para baixo a construção, que continua difícil de entender”, comentou Silvia.

A sua estranheza é em relação ao fato de que os insumos típicos da construção civil cresceram 2,1% em 2019, e o setor registrou 53 mil contratações líquidas de empregos formais no Caged no ano.

Adicionalmente, as vendas de material de construção também vêm crescendo e o PIB da construção do primeiro trimestre foi bem mais negativo do que o Indicador de Atividade Econômica (IAE) do setor do Ibre.

De qualquer forma, mesmo levando em conta os problemas na indústria extrativa e na construção, a melhora na transformação é um sinal positivo para a economia, na visão de Silvia.

“A indústria da transformação tem efeitos secundários relevantes, com impactos sobre comércio, impostos e transportes, por exemplo”, explica a economista.

Em termos da indústria de transformação nas contas nacionais do PIB do segundo trimestre, Silvia diz que sua equipe deve revisar para cima a atual projeção de crescimento, de 0,5% interanual, e de 1,2%, ante o primeiro trimestre (dessazonalizado).

Ela acrescenta que essa melhora da transformação consolida a projeção de crescimento do PIB no segundo trimestre de 0,4% (contra o primeiro, dessazonalizado) e de 0,9% em relação ao mesmo período de 2018.

Silvia nota que as projeções do PIB no segundo trimestre vêm tendo tendência de revisão para cima nas últimas semanas: “Houve alguns com projeção negativa que foram para zero, e outros com zero que aumentaram um pouco – é diferente do primeiro trimestre, em que foi ladeira abaixo”.

Para o PIB fechado no ano, a economista está mantendo a previsão de 1,1%, mas diz acreditar que as casas que estão trabalhando com números mais próximos de 0,5% devem tender a migrar para mais perto de 1%.

Ela ressalva que um PIB de 1,1% no ano pressupõe que a economia acelere no segundo semestre, mas, por outro lado, nota que os eventuais impactos da liberação de FGTS ainda não entraram na sua conta.

A recuperação da indústria de transformação no segundo trimestre –   assim como os fortes números de criação de empregos na PNAD-C – é um sinal, ainda incerto e por confirmar, de que melhores dias na economia podem vir.

Mas isso depende também de outros fatores, alguns já “contratados” e outros menos garantidos: o ciclo de cortes da Selic, medidas racionais e moderadas pela demanda, a aprovação final de uma boa reforma da Previdência e o encaminhamento pelo Congresso de uma reforma tributária consensual e tecnicamente bem elaborada, além de outros itens da pauta econômica.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 1/8/19, quinta-feira.

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