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Indústria e “efeito Argentina”

Surpresa negativa na produção industrial de julho pode estar ligada ao agravamento da crise argentina, diz Luana Miranda, do FGV-Ibre. Para José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator, falta investimento público.

Fernando Dantas

04 de setembro de 2019 | 20h55

A crise argentina pode estar tendo um efeito negativo na retomada brasileira maior do que o ministro da Economia, Paulo Guedes, gostaria de admitir. Na visão de Luana Miranda, economista do Ibre/FGV voltada para a atividade econômica, a concentração da queda da indústria da transformação, em julho, nos bens intermediários pode indicar a influência argentina.

Para embasar essa visão, ela destaca inicialmente que o resultado da produção industrial em julho foi de fato uma surpresa negativa, especialmente pelo mau desempenho da indústria de transformação, que recuou 1,7% em relação ao mesmo mês de 2018.

Ela nota que esse resultado veio na contramão de indicadores antecedentes, que indicavam alta em relação a julho de 2018: produção de automóveis, tráfego em estradas pedagiadas, produção de papel ondulado para embalagens e o Indicador do Nível de Atividade da Indústria Paulista (INA) da Fiesp, que cresceu 4,7% na comparação de julho deste ano com o mesmo mês de 2018.

A surpresa negativa na indústria total em julho não se deveu à indústria extrativa-mineral, que vem sendo o grande freio do setor, em boa parte como consequência do desastre de Brumadinho sobre a mineração.

Na verdade, como explica Luana, a extrativa-mineral, apesar da queda de 8,8% ante julho de 2018, vem crescendo na margem, com uma tendência de suavização gradual do choque de Brumadinho.

A economista acrescenta que a queda da indústria foi concentrada em 15 dos 26 setores, e, olhando-se pelas categorias de uso, limitou-se ao grande segmento dos bens intermediários, que recuou 5,4% na comparação entre julho de 2019 e o mesmo mês de 2018.

Em contraste, os bens de capital cresceram 6,7%; os bens de consumo duráveis, 0,9%; os semiduráveis e não duráveis, 1,7%; e os insumos típicos da construção civil, 2,5%.

Esse protagonismo dos bens intermediários na queda da produção industrial de julho é que levanta a suspeita de Luana de que a crise argentina pode ser uma forte influência.

Ela nota que normalmente se associa a Argentina como cliente das exportações brasileiras de veículos ou alguns outros bens de consumo ou de capital, mas, na verdade, as indústrias dos dois países tem um grau razoável de integração com muita exportação e importação de insumos.

Ela e a equipe do Ibre estão investigando mais a fundo a questão, mas se a hipótese for verdadeira é um mau sinal para a tímida retomada da economia brasileira.

A dificuldade inicial é que os problemas econômicos argentinos, tornados piores pelo quadro político-eleitoral, são gravíssimos e sem perspectiva de solução rápida. E se, de fato, a indústria de transformação brasileira está recebendo mais um choque negativo pelos percalços argentinos, isto é um mau sinal para a atividade econômica como um todo.

O problema inicial é que os problemas econômicos argentinos, agravados pelo quadro político-eleitoral, são gravíssimos e sem perspectiva de solução rápida. E se, de fato, a indústria de transformação brasileira está recebendo mais um choque negativo pelas dificuldades argentinas, isto é um mau sinal para a atividade econômica como um todo. A razão, como explica Luana, é que a transformação é um setor que pode dinamizar ou travar o PIN, já que seu nível de atividade tem muito impacto em outros setores, como transporte, comércio, arrecadação de impostos etc.

Numa visão mais geral, José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator, considera que a indústria parou de cair em 2019, mas, em vez de avançar, está basicamente parada.

“Não tem muita cara de recuperação, às vezes aparece um ou outro sinal de melhora, mas é tão lento que fica difícil de esperar uma mudança de fato, ele diz”.

Lima Gonçalves acha difícil que a economia saia da armadilha da demanda débil sem uma retomada do investimento público, o que, para ele, para dar bons resultados, exigiria “liderança política e técnica do governo”.

“Muitos que adoravam o teto dos gastos, com uma visão quase punitiva e religiosa, está revendo a posição, mas é algo que ficou tão impregnado que tem gente que nem consegue conversar sobre o assunto – não vejo uma mudança de orientação antes de uns seis meses”, ele conclui.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 3/9/19, terça-feira.

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