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Indústria é pré-condição para desenvolvimento?

Estudo sobre departamentos (divisões territoriais) da França, abrangendo um período de meados do século XIX ao início do século XXI, mostra que industrialização precoce levou a menor renda per capita em prazos muito longos.

Fernando Dantas

09 de janeiro de 2020 | 15h46

O debate sobre industrialização e desenvolvimento econômico é polêmico até hoje. Economistas desenvolvimentistas apontam a indústria como crucial para garantir um crescimento sustentável de longo prazo, enquanto ortodoxos tendem enfatizar fatores como capital humano (educação de qualidade), boas instituições e bom ambiente de negócios.

Essa discussão tende a ser especialmente aguda no Brasil, um país que sofreu com a desindustrialização nos últimos anos.

Um trabalho dos economistas Raphaël Franck (Universidade Hebraica de Jerusalém) e Oded Galor (Brown University, nos Estados Unidos), que será publicado pelo Journal of Monetary Economics, está colocando mais lenha nessa fogueira (https://www.brown.edu/academics/economics/sites/brown.edu.academics.economics/files/uploads/2018-7%20paper.pdf, versão de julho de 2018).

O estudo mostra que departamentos (divisões territoriais administrativas) da França que se industrializaram mais rapidamente no século XIX tiveram em média ganhos relativos de renda per capita (em relação à média do país) nas décadas subsequentes, mas apresentavam perdas relativas no mesmo indicador na virada do século XX para o XXI.

Ou seja, segundo o trabalho, a industrialização pode não conduzir ao desenvolvimento econômico no longo prazo. Pode até atrapalhar, na verdade.

Os autores também identificaram por que isso aconteceria. As regiões que se industrializaram cedo sofreram de um impacto negativo do fato de terem adotado tecnologias intensivas em uso de mão de obra pouco qualificada nos primeiros estágios da industrialização.

A análise de Franck e Galor mostra que nessas regiões há uma interação entre “inércia tecnológica” e “inércia cultural”. Esta segunda é caracterizada por aspirações educacionais mais baixas das pessoas dessas regiões, detectadas ao se analisar movimentos migratórios no interior da França. Filhos de pais que migraram de regiões com essa característica de ter tido a industrialização muito cedo para outras regiões sem esta característica continuam tendendo a ter aspirações educacionais mais baixas, indicando uma “transmissão intergeracional de uma predisposição mais baixa a investimento em capital humano”.

Por sua vez, a manutenção de uma grande oferta de trabalhadores de menor qualificação cria uma “inércia tecnológica” nas regiões que se industrializaram cedo, que leva à predominância de negócios que empregam tecnologias menos sofisticadas.

O trabalho emprega uma metodologia sofisticada, que utiliza a dispersão do uso do motor a vapor na França nas primeiras fases da indústria como medida do grau de industrialização dos diversos departamentos. Também usa variações climáticas, que afetam a lucratividade da agricultura nas diversas regiões. Esses efeitos estão ligados aos incentivos ou desincentivos para a região deslocar investimentos da agricultura para a indústria.

Logo no início do trabalho, Franck e Galor notam o fato muito conhecido de que países que se industrializaram mais cedo tendem a ser mais desenvolvidos. Isto aparentemente vai contra o achado deles em relação aos diversos departamentos da França.

Mas eles apontam que isso pode se dever aos fatores que levaram à industrialização mais cedo, e não a industrialização mais cedo em si mesma.

Para Franck e Galor, é possível que a causalidade seja do desenvolvimento econômico para a industrialização, e não o contrário; ou que o efeito conjunto de características institucionais, culturais, geográficas e humanas tanto no processo de desenvolvimento econômico como na evolução da industrialização seja o que explica a conexão entre os dois.

Assim, a raiz da prosperidade das nações avançadas não estaria na industrialização em si, mas sim nos fatores que levaram à industrialização.

Com certeza, esse estudo não vai pacificar as discussões sobre o papel da indústria no desenvolvimento, mas é mais uma peça no quebra-cabeça de uma das questões mais instigantes e duradouras do debate entre as diversas correntes de economistas.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 8/1/19, quarta-feira.

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